TRAGÉDIAS COLETIVAS

 

ACASO, DESTINO OU 

LIVRE-ARBÍTRIO?

 

Após uma tragédia coletiva como o acidente da GOL em 2006; o acidente da TAM em 2007, ou o acidente LaMia-CP2933 em 2016, no qual viajava a equipe Chapecoense, é comum ouvirmos comentários de pessoas ligadas ao meio espírita procurando dar uma explicação que conforte as pessoas que perderam seus entes queridos.

 

A maioria das explicações que temos ouvido e lido no meio espírita se direcionam para as idéias mais trabalhadas pelas pessoas que buscam conforto e esperança. Uma é o acaso e a outra é o destino.

 

A palavra acaso vem do latim acasus, que significa sem causa. Como não há efeito sem causa, esta opção já pode ser excluída. Dependendo da ideia de destino que o leitor faça, pode ficar a sensação de que era para ser assim, portanto o trágico fim seria inevitável. Tanto a crença no acaso como a crença no destino, diminuem a importância de se investigar e corrigir as causas, para evitar que tragédias semelhantes se repitam.

 

Se aceitarmos que se trata de destino, isto significa que a situação está sob controle de uma força superior, o que equivale a negar o livre-arbítrio. Tal idéia parece aceitável quando analisamos fenômenos naturais, como terremotos, tsunamis, furacões e inundações. Mesmo assim, depois da primeira surpresa, passamos a ter a opção de fazer algo a respeito para minimizar os danos decorrentes de catástrofes naturais previsíveis. Um exemplo disso está nos efeitos de alguns terremotos no Japão. É admirável notar que fortes tremores de terra causem poucos danos em algumas áreas do Japão, ao passo que tremores similares, causem enorme destruição e um enorme número de mortos em outros países. Os japoneses não têm controle sobre os terremotos, mas constroem seus novos prédios de modo a resistir a eles com o menor dano possível.

 

Se aceitarmos que um acidente, se trata de acaso, isto significa que a situação não está nem sob o controle humano e nem sob o controle de uma força superior; ou seja, se os fatores negativos coincidirem, o acidente se tornará inevitável. Estaríamos então nas mãos da sorte. Uma espécie de loteria da vida, onde se não chover, tudo dará certo.

 

Ambas as linhas de pensamento nos encaminham para um perigoso conformismo capaz de gerar uma repetição infindável de acidentes com perdas de vidas.

 

Precisamos pensar mais profundamente sobre o assunto, e tentar construir uma resposta que sobreviva ao teste da lógica e seja coerente com o que sabemos dos princípios doutrinários do Espiritismo. Entre eles destacamos o princípio do livre arbítrio. Este princípio não significa que temos controle de tudo, mas que somos responsáveis sobre os desdobramentos daquilo que está sob o nosso controle. O Espiritismo entende que livre-arbítrio é o espírito agindo no limite do seu conhecimento e sendo responsável na medida do seu entendimento.

 

As unidades culturais espíritas, apoiadas no estudo transdisciplinar da Filosofia, Ciência e Religião, trabalham no desenvolvimento da capacidade pensante dos seus estudiosos encarnados e desencarnados. Assim sendo, como espíritas, temos a responsabilidade de questionar, construir evidências e propor referenciais que contribuam para a mudança nos padrões morais e administrativos das organizações humanas. Afinal, em muitas situações, transferimos a estas organizações a responsabilidade pelo nosso bem-estar e segurança. Ao confiarmos nossas vidas à manutenção de uma empresa aérea; ao comando da Aeronáutica ou às decisões de uma agência reguladora, estamos renunciando a uma parte do nosso livre arbítrio e passando o controle àqueles que comandam o sistema aéreo.

 

Quando rejeitamos a idéia de destino ou acaso, nos obrigamos a propor uma terceira alternativa que explique racionalmente o que aconteceu. Esta terceira explicação aparece quando relacionamos as variáveis que contribuíram para a ocorrência do acidente. Uma vez listada, a somatória de variáveis causais, indicam que o acidente poderia ter sido evitado. Para tanto, bastava que cada um cumprisse o seu dever. Cumprir o dever pode significar estar mais atento às condições de sucesso de qualquer ação. Pode ser uma viagem de ônibus, um pouso, uma cirurgia, uma operação que pode levar uma empresa à falência, uma alimentação que pode fazer muito mal, dirigir um automóvel, etc.

 

Será que o acidente da TAM teria ocorrido se a proibição de pousar apenas com um reverso em dias de chuva, aplicada ao avião presidencial, fosse também aplicada aos vôos comerciais? Ou se tivesse sido proibido o pouso de aviões de grande porte em um aeroporto tão pequeno e sem pista de escape? Se a derrapagem do vôo da Pantanal, no dia anterior e os alertas dos pilotos que apelidaram a pista de “esqui no gelo” fosse levada a sério pelas autoridades do Aeroporto, da Aeronáutica ou da agência reguladora, o acidente teria ocorrido? Ou se a agência reguladora não tivesse enviado o documento que sensibilizou a juíza que fechou o aeroporto, forçando-a a liberar a pista recém reformada?

 

Será que as pessoas que deveriam ter assumido uma posição radical como fez a corajosa juíza, não deixaram para alguém decidir, ou confiaram no acaso ou no destino?

 

Quando se somaram as variáveis com potencial de gerar acidentes como: avião de grande porte pousando em pista de 1940 metros sem escape, comparado com pistas de até 4000 metros; chuva na pista; pista nova com ausência de canaletas para escoamento da água; limitações no reverso, o qual era extremamente importante em situações de chuva na pista, percebemos que o acidente da TAM se tornou impossível de evitar. Assim sendo, mesmo sem um profundo conhecimento técnico, é possível a qualquer pessoa que o analisa, compreender que aquele acidente ocorreu porque todas as pessoas diretamente envolvidas, permitiram que a somatória de variáveis causais ultrapassasse os limites de segurança de pouso.

 

Sem uma melhor compreensão do livre arbítrio e das nossas conseqüentes responsabilidades, continuaremos prisioneiros de mitos e crenças que tem o potencial de contribuir para gerar novas tragédias. Como espíritos, todos sabemos de antemão que iremos desencarnar um dia. Felizmente, ninguém sabe quando e nem como, pois o futuro depende de inúmeras variáveis e do uso que fazemos da nossa liberdade.

 

Administrar a nossa vida e os fatores que afetam a vida de outros com coerência, é responsabilidade de cada um; assim como, administrar recursos financeiros e técnicos, que impliquem em risco de interrupção da vida encarnada de muitos é responsabilidade de poucos. Por isso, seria desejável que estas poucas pessoas passassem a ter acesso a um melhor entendimento do sentido e do significado da vida; para que não sejamos surpreendidos por novos acidentes que possam interromper nossos projetos de vida antes do esgotamento natural do nosso capital de vida.

 

Depois que decola, o destino de um avião é o solo, quer seja por meio de um pouso normal, de um pouso forçado ou de uma queda fatal. Só devemos lembrar que, antes do pouso, houve a livre escolha do passageiro de aceitar o risco da viagem e a decisão soberana do piloto de autorizar a decolagem.

 

Quando as variáveis causais estiverem sob o controle humano, não há porque acreditar que somos vítimas do destino ou do acaso. Assim sendo, precisamos assumir que somos responsáveis pelas variáveis que estão sob nosso controle e cumprir com nosso dever sob pena de assumir sérios débitos morais perante nossa consciência e, portanto, perante as leis naturais.

 

Paulo Henrique Wedderhoff

Revista Ser Espírita - Dezembro de 2016.