Artigos Espíritas

 

 

Eu sou o que escolho me tornar

 

 

 Se você quer algo novo, você precisa parar de fazer algo velho.

Peter Drucker

 

 

 

As crenças, num sentido geral, representam uma das estruturas mais importantes do comportamento. Quando realmente acreditamos em algo, nos comportamos de acordo com essa crença.

 

Temos crenças sobre outras pessoas, sobre nós mesmos e sobre nossos relacionamentos, sobre o que é possível e sobre aquilo que somos capazes de fazer. São as regras pelas quais vivemos. São os nossos princípios de conduta. Agimos como se fossem verdade e, se gostamos dos resultados, continuamos a agir como se fossem verdade. Se não trazem bom resultado, mudamos. Ou seja, numa visão mais ampla, temos escolha quanto aquilo em que acreditamos.

 

A repetição dos atos comportamentais, mentais, gera hábitos e esses tornam-se memórias, que passam a funcionar automaticamente. Essas memórias são o nosso já sabido. Exemplo: guardamos sistematicamente a chave do carro em determinado lugar. Quando precisamos dela, de modo automático vamos ao local sabido por nós. Se, eventualmente, a deixamos em outro lugar, e precisarmos dela, voltamos a procurá-la no lugar já sabido, por automatismo. Não estando lá, surge a sofrência de pensar e pensar e pensar onde a teríamos deixado.

 

Como sempre, bem ensina a Benfeitora Espiritual Joanna de Ângelis[1] a respeito dos hábitos: São eles que passam a dirigir a sua conduta, porque toda a programação existencial começa no pensamento.

 

É de alta relevância considerar essa questão, porquanto no pensamento estão as ordens do que se deve realizar e como proceder à sua execução. Deixando-se conduzir pelas manifestações primitivas, habituais, repetem-se, sem resultados positivos, os labores que mantêm o ser no estágio em que se encontra, sem o valor moral para alcançar novos patamares do processo da evolução. [Grifamos]

 

Desde que no pensamento está a diretriz da conduta, pensar corretamente deve constituir o grande desafio de quem almeja o triunfo.

 

Nesse raciocínio, citamos frase atribuída a Albert Einstein: Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

 

Pensar e agir são termos da mesma equação existencial.

 

Com o passar do tempo, todos mudamos parte ou o todo de uma certa crença, mesmo sem nos apercebermos disso. Outras vezes o fazemos de modo intencional, ou ainda, obrigados pelas circunstâncias. Por exemplo, fazíamos uso regular de certo tipo de alimento, por acreditar que nos fazia bem. Em face de um diagnóstico médico, vem a prescrição de o abolirmos definitivamente, pois está nos prejudicando. E lá se foi uma crença.

 

Mudamos nossa crença e teremos mudado o comportamento correspondente. Porém, o comportamento naturalmente vivenciado decorre daquela crença na qual acreditamos de fato.

 

Mesmo desejando mudança, a princípio, a acomodação nos levará a nos repetirmos. A insistência e perseverança é que abrirão novo espaço no campo mental viciado, plantando as sementes novas. E novo hábito se irá implantando lentamente no subconsciente até tornar-se parte integrante do comportamento novo.

 

Leciona Joanna de Ângelis2: O indivíduo está sempre no momento presente, que é o seu instante decisório. O passado, por isso mesmo, não pode servir de parâmetro, senão aprender como não repetir os erros, pois que é irrecuperável, no entanto, reparável.

 

Se sonhamos com um Novo Ano, realmente novo, precisamos fazer por donde o homem velho dê lugar a um novo homem, renovado em seus pensamentos e atos.

 

Sabemos que é possível e necessário mudar, pois mudança é a única constante da vida.

 

Mude seus pensamentos e você muda seu mundo, diz-nos Norman Vicent Peale.

 

Não podemos prever o futuro, mas podemos criá-lo, a partir do nosso presente. Só no momento presente temos domínio da situação e recursos para isso.

 

Isso é uma constante entre os pensadores:

 

Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã. - Victor Hugo.

 

O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente. – Mahatma Gandhi.

 

O futuro é como o papel em branco em que podemos escrever e desenhar o que queremos. – Marquês de Maricá.

 

Hoje, neste tempo que é nosso, o futuro está sendo plantado. As escolhas que procuramos, os amigos que cultivamos, as leituras que fazemos, as crenças que firmamos, os valores que abraçamos, os amores que amamos, tudo será determinante para a colheita futura.

 

Este é nosso instante, e o instante é a continuidade do tempo, pois une o tempo passado ao tempo futuro, segundo Aristóteles.

 

Bastam pequenas mudanças para pequenas renovações.

 

A maior descoberta de minha geração, dizia William James, é que o ser humano pode alterar a sua vida mudando sua atitude mental.

 

Sonhemos sim, com um Novo Ano repleto de bênçãos e triunfos, que nos traga paz e saúde.

 

Mas precisamos fazer a nossa parte, fundamental no processo.

 

Aprendamos com Carl Gustav Jung: Eu não sou o que me acontece, eu sou o que escolho me tornar.

 

Velhos hábitos arraigados, pensamentos viciosos, vontade enfraquecida, atavismos perniciosos, ressentimentos conservados, conspirarão contra o programa de vida renovada.

 

Comecemos o nosso programa de construção de um Novo Ano, renovando as nossas velhas crenças. Mudemos os nossos pensamentos e raciocínios, direcionando-os para o êxito, em que devemos acreditar fortemente, e, empenhando-nos, conseguiremos.

 

Podemos ter um futuro melhorado.

 

E vencer a preguiça é a primeira coisa que o homem deve procurar, se quiser ser dono do seu destino, recomenda Thomas Atkinson.

 

Não podemos aguardar que os tempos se modifiquem e junto nos modifiquemos, por uma revolução silenciosa que chegue sem que a esperemos e nos leve em sua marcha, sem que sejamos agentes dela. Nós mesmos somos o futuro. Nós somos a revolução.


 


[1] FRANCO, Divaldo Pereira. Vida: desafios e soluções. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1997. cap. 4, item Hábitos mentais.

2 Op. cit. cap.4, item Frustrações e dependências.

Jornal Mundo Espírita - jan/2017 - Fed. Esp. Paraná


 

ALLAN KARDEC

 RESGATANDO O TESOURO DA BOA NOVA

 

 

O tcheco Jan Huss, concorde com as ideias de John Wycliffe, no final do século XIV e começo do XV, se firmou como um dos precursores da Reforma Protestante que se deu no século XVI, liderada por Martinho Lutero.

 

Esse movimento reformista desejava uma religião liberta de certos excessos e que retomasse a pureza e simplicidade de suas bases, em identidade com a mensagem da Boa Nova, apresentada e vivida por Jesus.

 

Que a religião fosse o elo entre o coração do homem e Deus, por provocar efetivas reformas morais em cada um.

 

Com esse objetivo, Huss celebrava missas e proferia seus sermões em tcheco, quando deveriam ser somente em latim.

 

Também foi grande estimulador da vida em comunidade, o que se contrapunha ao feudalismo de então e algumas posturas da religião dominante. Seus ideais eram de uma sociedade justa e com igualdade.

 

A ideia prosperou entre grupos dos hussitas, que se reuniram em comunidades, e ficaram conhecidos como taboritas. Em defesa de suas ideias foi aos extremos do sacrifício.

 

Foi queimado vivo em 6 de julho de 1415. Porém, suas atividades de pregador e sua condenação foram elementos decisivos que deram grande força à Reforma Protestante em sua terra natal, a Boêmia.

 

Suas ideias não morreram com ele. Prosseguiram, qual fermento levedando a massa, no que se chamou depois de Revolução Hussita.

 

No entanto, a grande reforma pretendida pelo Senhor da Vida para a Humanidade, que começou num tempo não sabido, ainda não estava concluída. Na admirável lei de harmonia que rege a vida e os mundos, tudo se encadeia no Universo, num compasso contínuo e persistente.

 

Em 1804, no dia 3 de outubro, em Lyon, França, nasceu Hippolyte Léon Denizard Rivail. Era Jan Huss que voltava para dar continuidade ao seu trabalho renovador.

 

A saga de Rivail o conduz ao Continente do Espírito, levando-o a desbravá-lo com mestria, resgatando o tesouro da Boa Nova, que vem infielmente guardado em baús de práticas exteriores e outros atavismos ancestrais, velando, para os olhos do povo, a sua verdadeira riqueza transcendental e utilidade existencial.

 

A restauração dos ensinos de Jesus, em sua singeleza e originalidade, precisava e precisa continuar sendo realizada.

 

Em nova etapa, a exposição do tesouro em resgate começou com a publicação de O livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857. Repetindo as experiências de seu tempo como Jan Huss, publicou livro de filosofia espiritualista em francês, sua língua mãe (tratados de filosofia somente eram publicados em latim).

 

Ousou mais ainda: o apresentou em forma de perguntas e respostas, para facilitar a leitura e o entendimento do seu conteúdo (e não na exaustiva forma de longos tratados, como de praxe). Depois de editar O livro dos médiuns (15.1.1861), trouxe a lume O Evangelho segundo o Espiritismo, em abril de 1864.

 

Na sequência, O céu e o inferno (1º.8.1865) e A gênese (6.1.1868). O Evangelho segundo o Espiritismo configura um marco na retomada da busca pela religião efetivamente estimuladora do reencontro com Deus no coração dos homens.

 

Assim comentou Allan Kardec : O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura.

 

Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-sacerdote.

 

E acrescentou : O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra. (...) restaurará a religião do Cristo(...); instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus (...) Kardec tinha ciência desse essencial aspecto de sua missão, desde 30 de abril de 1856, quando os Espíritos Luminares lhe disseram: 

 

Deixará de haver religião e uma se fará necessária, mas verdadeira, grande, bela e digna do Criador... Seus primeiros alicerces já foram colocados... Quanto a ti, Rivail, a tua missão é aí.

 

E ele bem cumpriu sua missão. Trouxe para sob o Sol do meio-dia a Doutrina Espírita.

 

Observemos ainda com Kardec a persistência de outra ideia predominante em Jan Huss – a vida em comunidade, por ser o modelo que alcançaremos um dia para a nossa sociedade : A comunidade é a abnegação mais completa da personalidade; ela requer o devotamento mais absoluto.

 

Ora, o móvel da abnegação e do devotamento é a caridade, isto é, o amor ao próximo. (...) Mas a fraternidade, assim como a caridade, não se impõe nem se decreta; é preciso que esteja no coração (...) Segue demonstrando que a vida em comunidade – parâmetro de um mundo melhor – depende de materiais sólidos em sua construção: Para tanto, os materiais sólidos são os homens de coração, de devotamento e abnegação. (...)

 

Estabeleceu que Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade. E a dualidade fé-razão, que contempla conhecimento, entendimento, compreensão e adoção, é a religiosidade da consciência, a qual não se baseia nessa ou naquela religião em particular, mas em comportamento congruente entre o que se sabe, no que se crê e o que se faz, por conseguinte.

 

A esse Apóstolo dos tempos modernos – Allan Kardec, cuja lida em nome do Cristo atravessa os portais do tempo em múltiplas existências, homenageamos com rápidos registros de sua saga, a qual nos legou os pilares de uma Nova Era. Ele desencarnou no dia 31 de março de 1869, em Paris, França.

 

Entretanto, suas ideias, tanto quanto as de Jan Huss, permanecem, como revolução silenciosa no seio da sociedade mundial, mantida pelo Movimento Espírita.

 

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1 . KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006. pt.1, cap. Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo. 2 . Op.cit. pt. 2, cap. Futuro do Espiritismo. 3 . Op. cit. pt. 2, cap. Primeira revelação da minha missão. 4 . ______. Viagem espírita em 1862. Rio de Janeiro: FEB, 2005. cap. Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux.

 

 



 

TRAGÉDIAS COLETIVAS

 

ACASO, DESTINO OU 

LIVRE-ARBÍTRIO?

 

Após uma tragédia coletiva como o acidente da GOL em 2006; o acidente da TAM em 2007, ou o acidente LaMia-CP2933 em 2016, no qual viajava a equipe Chapecoense, é comum ouvirmos comentários de pessoas ligadas ao meio espírita procurando dar uma explicação que conforte as pessoas que perderam seus entes queridos.

 

A maioria das explicações que temos ouvido e lido no meio espírita se direcionam para as idéias mais trabalhadas pelas pessoas que buscam conforto e esperança. Uma é o acaso e a outra é o destino.

 

A palavra acaso vem do latim acasus, que significa sem causa. Como não há efeito sem causa, esta opção já pode ser excluída. Dependendo da ideia de destino que o leitor faça, pode ficar a sensação de que era para ser assim, portanto o trágico fim seria inevitável. Tanto a crença no acaso como a crença no destino, diminuem a importância de se investigar e corrigir as causas, para evitar que tragédias semelhantes se repitam.

 

Se aceitarmos que se trata de destino, isto significa que a situação está sob controle de uma força superior, o que equivale a negar o livre-arbítrio. Tal idéia parece aceitável quando analisamos fenômenos naturais, como terremotos, tsunamis, furacões e inundações. Mesmo assim, depois da primeira surpresa, passamos a ter a opção de fazer algo a respeito para minimizar os danos decorrentes de catástrofes naturais previsíveis. Um exemplo disso está nos efeitos de alguns terremotos no Japão. É admirável notar que fortes tremores de terra causem poucos danos em algumas áreas do Japão, ao passo que tremores similares, causem enorme destruição e um enorme número de mortos em outros países. Os japoneses não têm controle sobre os terremotos, mas constroem seus novos prédios de modo a resistir a eles com o menor dano possível.

 

Se aceitarmos que um acidente, se trata de acaso, isto significa que a situação não está nem sob o controle humano e nem sob o controle de uma força superior; ou seja, se os fatores negativos coincidirem, o acidente se tornará inevitável. Estaríamos então nas mãos da sorte. Uma espécie de loteria da vida, onde se não chover, tudo dará certo.

 

Ambas as linhas de pensamento nos encaminham para um perigoso conformismo capaz de gerar uma repetição infindável de acidentes com perdas de vidas.

 

Precisamos pensar mais profundamente sobre o assunto, e tentar construir uma resposta que sobreviva ao teste da lógica e seja coerente com o que sabemos dos princípios doutrinários do Espiritismo. Entre eles destacamos o princípio do livre arbítrio. Este princípio não significa que temos controle de tudo, mas que somos responsáveis sobre os desdobramentos daquilo que está sob o nosso controle. O Espiritismo entende que livre-arbítrio é o espírito agindo no limite do seu conhecimento e sendo responsável na medida do seu entendimento.

 

As unidades culturais espíritas, apoiadas no estudo transdisciplinar da Filosofia, Ciência e Religião, trabalham no desenvolvimento da capacidade pensante dos seus estudiosos encarnados e desencarnados. Assim sendo, como espíritas, temos a responsabilidade de questionar, construir evidências e propor referenciais que contribuam para a mudança nos padrões morais e administrativos das organizações humanas. Afinal, em muitas situações, transferimos a estas organizações a responsabilidade pelo nosso bem-estar e segurança. Ao confiarmos nossas vidas à manutenção de uma empresa aérea; ao comando da Aeronáutica ou às decisões de uma agência reguladora, estamos renunciando a uma parte do nosso livre arbítrio e passando o controle àqueles que comandam o sistema aéreo.

 

Quando rejeitamos a idéia de destino ou acaso, nos obrigamos a propor uma terceira alternativa que explique racionalmente o que aconteceu. Esta terceira explicação aparece quando relacionamos as variáveis que contribuíram para a ocorrência do acidente. Uma vez listada, a somatória de variáveis causais, indicam que o acidente poderia ter sido evitado. Para tanto, bastava que cada um cumprisse o seu dever. Cumprir o dever pode significar estar mais atento às condições de sucesso de qualquer ação. Pode ser uma viagem de ônibus, um pouso, uma cirurgia, uma operação que pode levar uma empresa à falência, uma alimentação que pode fazer muito mal, dirigir um automóvel, etc.

 

Será que o acidente da TAM teria ocorrido se a proibição de pousar apenas com um reverso em dias de chuva, aplicada ao avião presidencial, fosse também aplicada aos vôos comerciais? Ou se tivesse sido proibido o pouso de aviões de grande porte em um aeroporto tão pequeno e sem pista de escape? Se a derrapagem do vôo da Pantanal, no dia anterior e os alertas dos pilotos que apelidaram a pista de “esqui no gelo” fosse levada a sério pelas autoridades do Aeroporto, da Aeronáutica ou da agência reguladora, o acidente teria ocorrido? Ou se a agência reguladora não tivesse enviado o documento que sensibilizou a juíza que fechou o aeroporto, forçando-a a liberar a pista recém reformada?

 

Será que as pessoas que deveriam ter assumido uma posição radical como fez a corajosa juíza, não deixaram para alguém decidir, ou confiaram no acaso ou no destino?

 

Quando se somaram as variáveis com potencial de gerar acidentes como: avião de grande porte pousando em pista de 1940 metros sem escape, comparado com pistas de até 4000 metros; chuva na pista; pista nova com ausência de canaletas para escoamento da água; limitações no reverso, o qual era extremamente importante em situações de chuva na pista, percebemos que o acidente da TAM se tornou impossível de evitar. Assim sendo, mesmo sem um profundo conhecimento técnico, é possível a qualquer pessoa que o analisa, compreender que aquele acidente ocorreu porque todas as pessoas diretamente envolvidas, permitiram que a somatória de variáveis causais ultrapassasse os limites de segurança de pouso.

 

Sem uma melhor compreensão do livre arbítrio e das nossas conseqüentes responsabilidades, continuaremos prisioneiros de mitos e crenças que tem o potencial de contribuir para gerar novas tragédias. Como espíritos, todos sabemos de antemão que iremos desencarnar um dia. Felizmente, ninguém sabe quando e nem como, pois o futuro depende de inúmeras variáveis e do uso que fazemos da nossa liberdade.

 

Administrar a nossa vida e os fatores que afetam a vida de outros com coerência, é responsabilidade de cada um; assim como, administrar recursos financeiros e técnicos, que impliquem em risco de interrupção da vida encarnada de muitos é responsabilidade de poucos. Por isso, seria desejável que estas poucas pessoas passassem a ter acesso a um melhor entendimento do sentido e do significado da vida; para que não sejamos surpreendidos por novos acidentes que possam interromper nossos projetos de vida antes do esgotamento natural do nosso capital de vida.

 

Depois que decola, o destino de um avião é o solo, quer seja por meio de um pouso normal, de um pouso forçado ou de uma queda fatal. Só devemos lembrar que, antes do pouso, houve a livre escolha do passageiro de aceitar o risco da viagem e a decisão soberana do piloto de autorizar a decolagem.

 

Quando as variáveis causais estiverem sob o controle humano, não há porque acreditar que somos vítimas do destino ou do acaso. Assim sendo, precisamos assumir que somos responsáveis pelas variáveis que estão sob nosso controle e cumprir com nosso dever sob pena de assumir sérios débitos morais perante nossa consciência e, portanto, perante as leis naturais.

 

Paulo Henrique Wedderhoff

Revista Ser Espírita - Dezembro de 2016.


 

 

Obsessores...
quem são eles?

 


“Recorda teus perseguidores com piedade consoladora, laborando em benefício deles com o perdão. Evoca-os em tuas orações intercessórias, que os alcançarão em forma de lenitivo e esperança. Ajuda-os, por tua vez, como ontem te auxiliaram outros corações dos quais não recordas.” (Joanna de Ângelis)

 

Lembremo-nos de quanto carinho devemos ter por nossos obsessores. Esquecemos quanta dor levam no peito e que não são somente ódio, pois eles têm, como todos nós, um lado humano, embora empedernido pelo desejo de vingança.

 

Imaginemos quanto amor alguém tem por eles. Uma mãe, um pai, um filho, irmãos, amigos... Um sentimento de piedade nosso pode lenir a alma desesperada daqueles que nos odeiam. Esse é o amor que é possível sentir pelos obsessores, mesmo que estejamos ainda muito aquém da reconciliação.

 

De ordinário, os obsessores são também obsidiados. Mentes vigorosas os mantêm cativos de uma influência vampirizadora, em troca de supervisão e apoio de outros obsessores que se associam a eles. Não é preciso dizer que são irmãos extremante infelizes e que os mais perigosos escondem um vazio no coração que espera o lenitivo que anseiam. Eles necessitam dos obsidiados para colher energias que os sustentem.

 

Entendemos que Jesus espera de nós que amemos nossos inimigos com um amor terno, com afeição e carinho.

 

“É natural que tenhamos adversários, mas não inimigos.” (André Luiz)

 

Existem adversários que se estimam mutuamente, ou que ao menos se respeitam sem nenhum tipo de animosidade. Transformar um inimigo em adversário é um primeiro passo rumo ao perdão, desde que nós já tenhamos perdoado.

 

O perdão significa libertação de grilhões de ódio. Mas, se nós perdoamos e nosso adversário não, espera-se que o vínculo obsessivo se desfaça naturalmente, a não ser que a provação deva continuar.

 

“É com brandura que se deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento para conhecerem a verdade e voltarem ao bom senso, livrando-se das armadilhas do diabo, a cuja vontade estão sujeitos.” (2 Timóteo 2:25-26)

 

Muitas vezes nossos obsessores foram nossos comparsas que agora enxergam traição no fato de deixá-los para seguirmos Jesus. Voltam-se com ódio para nós e investem contra nós, atingindo-nos em nossos pontos vulneráveis e nos mais caros interesses, pois foram nossos amigos e conhecem-nos muito bem. Seu desejo é atormentar-nos para ver até que ponto permaneceremos fiéis a Jesus, embora reconheçam que mudamos de alguma sorte, mesmo que pouco. Mas eles são ainda suscetíveis de retomar, no futuro, a antiga amizade.

 

Enxergar amigos em nossos obsessores é a chave que abre as amarras da obsessão.

 

Reconhecer que a prova da obsessão é um mecanismo de redenção muda toda a nossa perspectiva acerca dos papéis que interpretamos nesse intrincado labirinto de animosidade, em que encontramos a possibilidade de conviver intimamente com nossos inimigos, estimando-os não como inimigos, mas como bons adversários.

 

Entender a dor como mola propulsora do ódio deve fazer com que trabalhemos não tanto pela libertação, mas para a reconciliação entre dois amigos que sofrem. Lembremos que, muitas vezes, não podemos fazer o bem diretamente aos nossos obsessores porque eles se opõem a isso, devido ao abismo que separa obsessor e obsidiado. Descobrimos, então, o valor do silêncio e da oração, que ofertarão lenitivo e esperança a um coração que sofre, porque em processos como esses ninguém é feliz e todos sofrem.

 

Fonte:

Revista O Consolador

Ano 10 - N° 485 - 2 de Outubro de 2016

 


 

 

O que buscamos com a prece?

 

 

O QUE BUSCAMOS COM A PRECE?

 

 

 

Por Claudia Guadagnin

 

Numa tarde, Chico Xavier voltava a pé e sozinho da Fazenda Modelo, onde trabalhou durante o tempo em que viveu em Pedro Leopoldo (MG). De repente, ele parou no meio da estrada de terra e se jogou no chão, de joelhos, com as mãos entrelaçadas em prece. Naquela época ele já se comunicava com espíritos desencarnados, mas em algumas situações se sentia incomodado por alguns deles.

Nestas horas, Chico procurava rezar e pedir perdão. Assim conseguia reverter os maiores momentos de desconforto. A lição aprendida? Que a prece pode realmente ser um “santo” remédio. Essa história é uma das que ilustram a vida de um dos mais importantes médiuns brasileiros, contada em sua biografia, As Vidas de Chico Xavier, escrita por Marcel Souto Maior. No livro, dezenas de situações difíceis vividas por ele foram superadas com a ajuda da prece.

De acordo com o sociólogo e teólogo espírita Guilherme Knopak, que é também Professor na Faculdade Doutor Leocádio José Correia (FALEC), para o Espiritismo, a prece não deve ser exercida apenas como um pedido de ajuda em momentos difíceis. “Enquanto na maioria das vezes se pensa em prece como uma forma momentânea de inverter a lógica de funcionamento das coisas para atingir determinado fim, com a prece busca-se entender o mecanismo orgânico de funcionamento do Cosmos para se harmonizar com ele. Em outras palavras, a oração não deve ter a intenção de suspender temporariamente lei nenhuma, mas sim, de compreendê-la”, explica. Segundo ele, a prece deve servir para que, permanentemente, as pessoas possam refletir sobre o significado que têm atribuído à própria vida, ao Creador e às suas experiências. “O ideal é que as preces não sejam feitas, mas vividas, por meio de pensamentos, ações, palavras e sentimentos”.


Para o sociólogo, é fundamental que as intenções sejam sempre as melhores nos momentos da oração. “Os bons fluidos proporcionam um ambiente que facilita o acesso para atuação dos espíritos desencarnados. Eles não conseguem simplesmente agir mediante vontade própria. Necessitam de uma ponte de comunicação, que é construída pelos nossos pensamentos”. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec explica que a prece “é uma invocação, mediante a qual o homem entra, pelo pensamento, em comunicação com o ser a quem se dirige. Pode ter por objeto um pedido, um agradecimento”.


O espírito Leocádio José Correia, em mensagem psicografada pelo médium Maury Rodrigues da Cruz, sugere que “a verdadeira prece busca respostas; nunca dádivas”. Vale lembrar, ainda, da importância do livre-arbítrio, de que o homem tem liberdade para tomar iniciativas, já que é um ser inteligente, dono de sua própria razão. Durante a prece, muitas vezes é importante pedir coragem, paciência, resignação, como orienta Kardec. Assim, com a prece a pessoa conseguirá, por seus próprios meios, superar suas dificuldades. Ou seja: a pessoa fará prece, solicitará auxílio, mas é ela quem vai conseguir deixar seus problemas para trás por meio do livre-arbítrio. Além disso, é importante salientar que a prece tem poder quando direcionada a outras pessoas.


Segundo Kardec, isso se dá pela transmissão do pensamento. “Muitas vezes, indivíduos que estão com problemas de ordem física, moral ou espiritual não conseguem manter pensamentos equilibrados, o que dificulta a ação dos espíritos quando autorizados a agir. Nesses casos, a prece por terceiros é válida, já que uma pessoa, pensando sinceramente na outra, pode abrir um campo onde a atuação do polissistema espiritual seja possível”, observa Knopak.


A professora universitária Maria Francisca Carneiro conhece bem o poder das orações. Ela iniciou a prática ainda na infância, mas foi na adolescência que compreendeu a força do pensamento. “A prece é uma forma de iluminação da consciência. Ela nos coloca em sintonia com Deus e com as frequências vibratórias superiores. Por meio da prece, encontramos paz e força para enfrentar os problemas da vida. A oração nos fortalece e nos dá sabedoria para tirar o melhor de cada desafio”, diz. Segundo ela, a prece pode ser católica, muçulmana, espírita, evangélica ou budista. Não importa a religião, contanto que seja espontânea, intimista e verdadeira. “O mais importante é a sinceridade e a força da intenção. O segredo é sentir-se num momento de meditação, relaxado, como se estabelecesse diálogo com Deus. Isso amplia o poder da oração e oferece o retorno esperado mais rápido do que imaginamos”, indica.

 

EFEITOS TERAPÊUTICOS


Não é de hoje que se sabe que fazer prece contribui com a sensação de bem-estar, oferecendo calma, tranquilidade e harmonia. Estudos que comprovam a coerência dessas impressões também já são frequentes em diversas partes do mundo. A partir dos anos 70, surgiram cada vez mais pesquisas que relacionam saúde com espiritualidade.


Uma das investigações científicas sobre os efeitos terapêuticos da oração foi feita em 1988, quando Randolph C. Byrd, cardiologista do San Francisco General Medical Care Center, na Califórnia (EUA), publicou o resultado de uma experiência em que dividiu 393 pacientes do setor de cardiologia de seu hospital em dois grupos.

Depois de operadas, parte das pessoas recebeu orações e a outra parte não. Byrd acompanhou 29 indicadores de saúde nos dois grupos e percebeu que, em seis deles, os pacientes que receberam as preces apresentavam melhores resultados. Pierluigi Zucchi, diretor do Instituto para a Terapia da Dor, da Universidade de Florença, na Itália, acredita que a oração e a meditação não apenas contribuem para a eficácia dos tratamentos com remédios, como também aumentam os limites de resistência à dor. Uma das experiências de Zucchi consistiu em promover sessões de leitura e meditação sobre trechos do Evangelho de São João a grupos de enfermos, desconhecendo as convicções religiosas de cada um. O estudo revelou que o limite de resistência à dor entre os que tinham fé era muito mais elevado.


Segundo ele, provavelmente, a prece e a meditação aumentam a produção de algumas substâncias analgésicas produzidas pelo nosso cérebro. Já o psiquiatra Harold Koening, diretor do Centro de Religião, Espiritualidade e Saúde da Universidade Duke, nos Estados Unidos, mapeou 700 pesquisas sobre o tema. Do total avaliado, cerca de 500 trabalhos indicavam ligações entre crença religiosa e bem-estar físico. Segundo ele, entrevistados que afirmaram crer em uma “força maior” apresentaram, em média, melhor função imunológica, níveis mais baixos de colesterol, boa qualidade de sono e menor pressão arterial em comparação aos que se declararam céticos. Segundo o psiquiatra, pessoas que exercem uma prática religiosa regular vivem, em média, sete anos mais que as outras.

 

FLUIDO UNIVERSAL


Kardec explica, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, que o mecanismo da prece se dá graças ao fluido universal, que ocupa todos os seres, encarnados ou desencarnados. A vontade da pessoa no momento da prece é a mola propulsora deste fluido, ou seja, é o “veículo do pensamento, como o ar o é do som. Dirigido, pois, o pensamento para um ser qualquer, na Terra ou no espaço, de encarnado para desencarnado, ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece entre um e outro, transmitindo de um ao outro o pensamento, como o ar transmite o som”, afirma Kardec.

 

Edição 25 da revista SER Espírita

 

 

 

A cura das enfermidades do Espírito e a reforma da consciência

Xerxes Luna

 

I – A consciência e seus efeitos na saúde e na doença do ser humano 

 

A consciência da criatura humana guarda em sua intimidade as leis de Deus necessárias à plena harmonia de sua vida de relações, bem como as energias e informações decorrentes das suas diversas formas de pensar e agir na atual e nas demais reencarnações vivenciadas.

Nossos pensamentos e atitudes são usinas geradoras de energias a se irradiarem para todos os nossos órgãos, interligando-os e perpassando-os, afetando-lhes, inclusive, as vibrações.

Os pensamentos e atitudes centralizados no amor são geradores de forças equivalentes àquelas relativas à natureza divina do Espírito, fazendo com que ele experimente um estado de conforto e equilíbrio vibratório conhecido usualmente como saúde. Entretanto, quando as energias geradas são de natureza oposta as do amor ocasionam as enfermidades.

Logo, essas enfermidades são decorrentes das agressões sofridas pelos corpos, na sua intimidade vibratória. Seus efeitos causam desconforto ao Espírito, principalmente no consciente e no inconsciente dando, por vezes, origem a doenças localizadas em regiões específicas do organismo físico.

Sabemos dos grandes desafios a que estão submetidas nossas emoções e atitudes na luta incessante pela preservação da vida, num mundo de expiações e provas. Somos constantemente levados, não só a conquistar e ampliar saberes, que favoreçam nossa sobrevivência e felicidade, como também a experimentar as mais variadas formas de emoção e satisfação, algumas delas com reflexos danosos ao nosso equilíbrio interior.

Portanto, o grande objetivo da criatura humana em sua busca pela saúde integral é eliminar esses focos de desequilíbrio e, consequentemente, evitar o surgimento de novos.

 

 

II – As enfermidades e a depuração do Espírito

 

É comum às criaturas buscarem a medicina acadêmica ou até mesmo os tratamentos alternativos para se libertarem das doenças físicas e psíquicas que afligem sua vida cotidiana, principalmente aquelas que afetam seu organismo físico. Nesse sentido, é importante salientar que as doenças do corpo e da mente têm suas raízes no estado vibratório em que se encontra a consciência do Espírito encarnado, por este motivo Jesus, ao curar as pessoas dos seus males físicos, as orientava a não voltarem a pecar.

As enfermidades, portanto, guardam estreita sintonia com o padrão de consciência em que se encontra o Espírito no seu estágio evolutivo, ainda receptivo aos pensamentos e comportamentos equivocados. À proporção que ele se depura, ao longo das reencarnações sucessivas, essas enfermidades vão paulatinamente diminuindo até serem totalmente extintas, quando o Espírito alcança a escala de Espírito puro.

Como essa depuração não ocorre de uma hora para outra, pois está associada às variadas experiências reencarnatórias a serem vivenciadas pelo Espírito, a Providência divina concede-nos recursos temporais, voltados para o êxito do nosso intento evolutivo, incluindo o combate às doenças do corpo físico. Para isso, Deus nos dá o conhecimento da Ciência Médica, convencionalmente, em suas diversas especialidades. Daí nosso respeito aos procedimentos médicos convencionais, fruto do estudo e da pesquisa nas diversas manifestações das doenças do corpo físico e da mente da criatura encarnada. As terapias alternativas, voltadas para a saúde do corpo físico e da mente humana, também devem ser respeitadas e consideradas. Sua aplicação deve guardar o devido respeito ao tratamento convencional da responsabilidade da Ciência Médica estudada nas academias de Medicina.

 

 

III – Procedimento de cura de enfermidades com  intervenção dos Espíritos

 

O grande propósito do Espiritismo, no âmbito da restauração da saúde da criatura humana, centraliza-se, primordialmente, na extinção das raízes da enfermidade localizadas em seu organismo espiritual, o que não implica em desconsiderar a expectativa do necessitado de restabelecer sua saúde física.

Suas intervenções estão focadas em duas direções: na harmonização do padrão de consciência do enfermo e no socorro espiritual necessário à saúde do seu corpo físico e da sua mente.

A terapêutica, utilizada na harmonização do padrão de consciência do enfermo, consiste em edificar na sua mente a convicção de que, ao ampliar suas percepções acerca da verdadeira vida, diminuirá sua ignorância, seus medos e suas dúvidas e compreenderá, acima de tudo, que a saúde integral que ele busca depende do aprimoramento do seu padrão de pensamento e comportamento. Que a doença deve ser percebida como um meio para se conseguir a harmonização dos desalinhos vibratórios que perturbam o Espírito. Que seu desejo de saúde deve ir além da cura do corpo físico, já que este reflete, na carne e na mente, nada mais nada menos que os efeitos e sintomas de uma enfermidade mais grave localizada no seu Espírito, mais especificamente no seu perispírito (corpo modelador da sua organização física). Que pouca eficácia terá seu tratamento se ele não cuidar de extirpar a causa geradora do mal que o aflige. Para tal, deve concentrar-se, também, no cumprimento das recomendações voltadas à harmonização energética do seu corpo espiritual, pois é nele que se encontra fincada a semente da enfermidade. Ao contrário dos medicamentos prescritos para a doença do seu corpo físico, o medicamento restaurador dos desalinhos vibratórios do seu perispírito é de natureza fluí- dica. Esse quantum de energia, em forma de fluidos provenientes da esfera espiritual, quando devidamente assimilados pelos centros de força do paciente, tem efeito restaurador. Para isso, é preciso que o socorrido colabore com o tratamento, esforçando-se por melhorar o padrão vibratório do seu corpo espiritual pela vivência, pautada no respeito à natureza e aos valores e direitos humanos, efetivada na prática da generosidade, da fé, da fraternidade, da solidariedade, da paciência, da dignidade, da honestidade, da humildade, da justiça social, da preservação dos bens naturais e das contribuições concretas para a paz no mundo.

No que se refere ao socorro à enfermidade física, prioritariamente esse intento deve estar associado às orientações legais da prática da Medicina acadêmica.

Nesses casos, os Espíritos-médicos encarregados de assistirem os enfermos atuam, primeiramente, em parceria com os médicos encarnados que os estão tratando. Essa parceria se efetiva por meio da intuição e dos tratamentos subsidiários como o passe e a água fluidificada.

Quando o tratamento médico exige uma intervenção mais específica do âmbito da Medicina Espiritual, uma vez que a terapêutica exigida transcende os limites da Ciência Médica convencional (acadêmica), os Espíritos-médicos benfeitores recorrem a procedimentos não convencionais como cirurgias no perispírito, em que não há a necessidade de corte no corpo físico, à recomendação de medicamentos naturais, não alopáticos, manipulados com componentes e fórmulas prescritas pelo plano espiri- tual, além de outras terapêuticas que não agridem o bom senso, nem os ensinamentos e recomendações do Espiritismo. Essas intervenções, no entanto, não desobrigam o paciente de continuar com as recomendações prescritas pela Medicina acadêmica, tampouco devem servir de afronta ao conhecimento da Ciência Médica terrena, ainda menos se prestar a ganhos financeiros ou outros de qualquer espécie.

É importante salientar que as intervenções médicas espiri- tuais voltam-se, primordialmente, para a restauração dos danos existentes no perispírito. Seus reflexos no restabelecimento da saúde do corpo físico dependerão do tempo necessário para a harmonização do desalinho vibratório da parte perispiri- tual afetada, do planejamento reencarnatório do enfermo, dos imperativos da Lei de Causa e Efeito e do merecimento, pois “o amor cobre multidões de pecados” (1 Pedro, 4:8).

 

IV – O Centro Espírita e as curas espirituais

 

É inegável a importância do Centro Espírita no trabalho de consolação e socorro aos aflitos de qualquer natureza, mas também é inegável que o Centro Espírita tem compromissos inadiáveis com a prática e a difusão do autêntico Espiritismo, codificado por Allan Kardec.

No que se refere às curas espirituais sob sua responsabilidade é imperativo que os procedimentos ali aplicados sigam as recomendações advindas do plano espiritual superior, transmitidas pelos Espíritos benfeitores como Bezerra de Menezes, André Luiz, Joanna de Ângelis, Manoel Philomeno de Miranda, através da mediunidade segura de bons médiuns, a exemplo Divaldo Pereira Franco e os saudosos Francisco Cândido Xavier e Yvonne do Amaral Pereira, para citar alguns.

Deve a Casa Espírita estar atenta ao desenvolvimento dessa tarefa específica de aliviar dores e sofrimentos, pois, como todas as demais, sua repercussão, se negativa, não só abalará as bases de credibilidade da instituição na sociedade, como também servirá de pretexto para os opositores do Espiritismo se municiarem de elementos para desacreditá-lo.

Não nos esqueçamos de que o compromisso primeiro do Espiritismo é fornecer aos sofredores e enfermos meios para a cura das doenças que lhes afetam o equilíbrio e a saúde.

 

 

 

Revista O Reformador. Federação Espírita Brasileia. 2014
 

 

Grande homem e mestre


da caridade  

 

 


Conhece-se um grande homem por seus bons atos, sentimentos e palavras.

 

Como vive em sociedade, o homem – ser humano – é testado continuamente pelos conhecimentos de ordem humana que possui e, como é um ser dotado da centelha divina, também é observado e avaliado com base nos preceitos pertinentes à eternidade.

 

Em ambos os sentidos, Adolfo Bezerra de Menezes foi um grande homem.

 

Com notável reputação, não tardou a ser aclamado e eleito deputado geral. A política é, como sabemos, um dos mais severos testes para a análise moral, pois assegura, de certa forma, autoridade, e quando esta não é compreendida e se transforma em poder cego e abusivo, pode contribuir para que se instaure o caos, como vemos atualmente em nosso País.

 

Bezerra de Menezes em nenhuma circunstância comprometeu seus elevados princípios em troca de favores ou interesses; sua hombridade foi sempre marcante e decisiva. Ele desejava sinceramente a felicidade e o amparo do próximo, o que acabou levando-o a abandonar a carreira pública, visto que seus ideais não acordavam com os da política em si. Sua aspiração era ser o auxílio ao irmão mais desvalido, a palavra bondosa para com o coração entristecido, o médico para o socorro do desenganado. Ele era, sobretudo, a personificação da bondade e realizava tudo com amor.

 

Ao conhecer o Espiritismo, seu coração se entregou inteiramente à causa espírita. Assimilou, com perfeição, todo o ensinamento espírita e sua dedicação a esse mister produziu maravilhosos frutos. Ainda assim, não lhe faltaram nas lides espíritas chateações e aborrecimentos; contudo, ante as inconveniências vividas, adotou sempre atitudes sábias, respeitosas e amorosas em todas as ocasiões. Para Bezerra de Menezes, o amor era a melhor resposta para o seu oposto.

 

Como se não bastassem as discordâncias naturais, existem aquelas que procrastinam o propósito entre os profitentes de um mesmo aparente ideal, de modo que, de par com um grande objetivo, muitas vezes existe o dissenso. Foi o que se deu com Bezerra de Menezes, que se deparou com um sério problema entre os espíritas: os que aceitavam o Espiritismo no aspecto religioso e os que somente o aceitavam pelo lado científico e filosófico. Ele, porém, utilizando-se sempre do bom senso amoroso, conquistava seus caminhos. É que o homem sábio cria meios de fazer valer a verdade sem desmerecer nem ridicularizar o próximo, porquanto compreende o outro como parte de seu universo, um companheiro da jornada da vida, e não apenas um oponente.

 

É curioso como há maneiras variadas de dissertar sobre um grande homem. Com Adolfo Bezerra de Menezes não é diferente, porque é ele um notável exemplo de incontáveis sequências benfazejas.

 

Como todos sabemos, ele enalteceu a verdade ensinada pelo Mestre Jesus e valeu-se do recurso da ciência para a cura do corpo, mas em nenhum momento se esqueceu da prática da caridade, sustentação amorosa para os Espíritos enfraquecidos.

 

Há exemplos de todas as qualidades e vibrações no cenário da vida. O livre-arbítrio será a escolha para a paz ou para a perturbação.

 

Exemplos abençoados não faltam para nos inspirar. Dr. Bezerra de Menezes é um deles.

 

No curso da história, porém, conhecemos imensurável número de fatos tristes e de completo sofrimento pela simples razão de não ter sido o amor o protagonista.

 

Referência:

Revista O Consolador - Edição 438 - 1º/11/2015

 


 

Na ausência do amor

 

Aquele que diz que está na luz, mas odeia o seu irmão, está nas trevas até agora. O que ama o seu irmão permanece na luz e nele não há ocasião de  queda. Mas o que odeia o seu irmão está nas trevas; caminha nas trevas, e não sabe aonde vai, porque as trevas cegaram os seus olhos.1,João, 2:9-11. (Bíblia de Jerusalém)

 

Sob esse título, Emmanuel analisa que as diferentes manifestações da intransigência ou fanatismo refletem uma alma enferma, doente porque escolheu  viver na ausência do amor.

 

Se não sabes cultivar a verdadeira fraternidade, será atacado fatalmente pelo pessimismo, tanto quanto a terra seca sofrerá o acúmulo do pó. Tudo incomoda quele que se recolhe à intransigência. Os companheiros que fogem às tarefas do amor são profundamente tristes pelo fel de intolerância com se alimentam.1

 

Como enfermidade do Espírito, a intransigência expressa severidade ou rigor perante os comportamentos  e opiniões humanos. Em se tratando de ação política ou  religiosa, a intransigência demonstra  atitude odiosa, agressiva, a respeito daqueles de cuja opinião ou crença se diverge.

 

Estejamos, pois, atentos porque a intransigência não se instala abruptamente. Requer um período de incubação gradual, semelhante ao que acontece nas doenças infecciosas. Só que no caso da intransigência,  a infecção ocorre na alma.

 

Procuremos guardar a devida vigilância com o intuito de aprender identificar sinais reveladores dessa terrível infecção espiritual,  alguns dos quais são assim destacados por Emmanuel:

 

Convidados ao esforço de equipe, asseveram que os homens respiram em bancarrota moral. Trazidos ao culto da fé, supõem reconhecer, em toda parte, a maldade e a desilusão. Chamados à caridade, consideram nos irmãos de sofrimento inimigos prováveis, afastando-se irritadiços. Impelidos a essa ou àquela manifestação de contentamento, recuam desencantados, crendo surpreender a maldade e a lama nas menores exteriorizações de beleza festiva.1

 

O filósofo iluminista Voltaire já afirmava que a intransigência ou fanatismo “[…] é para a superstição o que o delírio é para a febre, o que a raiva é para a cólera. Aquele que tem êxtases, visões, que toma os sonhos como realidades, e suas imaginações como profecias, é um entusiasta; aquele que alimenta sua loucura com assassinato é um fanático.”2 

 

A história humana está repleta de atentados cometidos contra a Lei de Deus porque pessoas fanáticas ou intransigentes, agindo como juízes severos e frios, não hesitaram em cometer crimes, condenando à morte ou à perseguição implacável  irmãos em humanidade, simplesmente por que estes não pensam como eles. A civilização atual, contudo, indica que o ser humano evoluiu e que leis mais justas foram elaboradas, a fim de que a vida em sociedade possa estabelecer uma convivência mais pacífica.

 

A pessoa de bem sabe que a é preciso agir com muita prudência e espírito de benevolência perante à divergências encontradas no cenário social.

 

Excessos dogmáticos, lances de fanatismo, opiniões prepotentes, medidas de intolerância e injúrias teológicas podem ser considerados por enfermidades das instituições humanas, destinadas a desaparecer com a terapêutica silenciosa da evolução e do tempo, embora constituem para todos nós, os espíritas cristãos encarnados e desencarnados, constantes desafios a mais amplo serviço na sementeira da luz. 3

 

O maior desafio da humanidade atual  é vivenciar o amor, trilhando os caminhos da luz, libertando-se das trevas, como esclarece o apóstolo João na citação inserida no início deste texto: “o que ama o seu irmão permanece na luz e nele não há ocasião de  queda.” O  Amor é, pois a solução, o remédio salutar, a vacina eficiente, que cura e produz imunidade às enfermidades espirituais.

 

Quem ama o próximo sabe, acima de tudo, compreender. E quem compreende sabe livrar os olhos e os ouvidos do venenoso visco do escândalo, a fim de ajudar, em vez de acusar ou desservir.


É necessário trazer o coração sob a luz da verdadeira fraternidade, para reconhecer que somos irmãos uns dos outros, filhos de um  só Pai.4

 

Referências 

  1. XAVIER, Francisco Cândido. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 1 ed. 6 imp. Brasília: FEB, 2013. Cap. 158, p. 333.
  2. Dicionário filosófico. Tradução de Ciro Mioranza e Antonio Geraldo da Silva.São Paulo: editora Scala, 2008, p. 258.
  3. XAVIER, Francisco Cândido. Justiça divina. Pelo Espírito Emmanuel. 14 ed. 3 imp. Brasília: FEB, 2013. Cap. 76, p. 184.
  4. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 1 ed. 6 imp. Brasília: FEB, 2013. Cap. 159, p. 335.

 

 

Aliança da Ciência e da Religião

 

 

Em termos históricos, a relação entre a Ciência e a Religião pode ser entendida como, no mínimo, complexa, considerando que tanto as inspirações religiosas impulsionam o desenvolvimento científico, como o conhecimento científico e tecnológico produzem efeitos significativos nas crenças religiosas. Justamente por se tratar de relacionamento complexo, a união entre a Ciência e a Religião é e foi marcada por conflitos cuja solução encaminha para uma coexistência pacífica, como bem esclarece o Espiritismo.

A Ciência e a Religião são duas alavancas da inteligência humana; uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Ambas, porém, tendo o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se fossem a negação uma da outra, uma necessariamente estaria em erro e a outra com a verdade, porque Deus não pode querer destruir a sua própria obra. A incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de ideias provém apenas da observação defeituosa e de um excesso de exclusivismo, de um lado e de outro. Daí o conflito que deu origem à incredulidade e a intolerância.1

Relevantes contribuições de teólogos e cientistas da atualidade confluem para o consenso de que o ser humano foi criado para ter uma visão integral da vida. Entende-se hoje com mais clareza que a mente humana não foi concebida para perceber a realidade de forma dicotomizada, resultando daí que o homem aprende a lidar com temas antagônicos como Ciência e Religião que, por si sós, são provocadores de conflitos, uma vez que revelam domínios distintos da experiência humana. Percebe-se, porém, que tais conflitos são mais de forma do que de conteúdo, uma vez que indicam, na essência, desentendimentos relacionados à manifestação da autoridade religiosa ou científica, ambas fortemente impregnadas pelas normas, dogmas, rituais e preceitos, as quais lhes impõe barreiras para a vivência dos preceitos morais. Vencidas estas barreiras, a aliança entre a Ciência e a Religião se estabelece.

Neste sentido, Immanuel Kant (1724-1804) lembra que “somente a pura intenção moral do coração pode tornar agradável a Deus (Evangelho de Mateus, 5:20 a 48)”.2 Para este admirável filósofo alemão os conflitos entre religiosos e cientistas deixam de existir se ambos se dispuserem a seguir apenas dois deveres na vida:

  • 1º) Adotar como regra universal de conduta o preceito considerado legislador de todos os deveres, “[…] que compreende em si a condição moral interior como condição moral exterior do homem, isto é, cumpre teu dever sem invocar outro motivo que seu valor imediato, ou seja, ama a Deus acima de tudo. […]”.2
  • 2º) Utilizar como regra particular de vida a aplicação do dever universal de conduta, ora citado, “[…] nas relações externas com os outros homens: Ama teu próximo como a ti mesmo, ou seja, adianta seu bem com uma benevolência que, imediata, não deriva de motivos egoísticos. […]”.2

Com base nesses e em outros princípios, o perfil que se delineia no mundo atual é o de que a Religião está perdendo gradualmente a guerra contra a Ciência, e vice-versa, tornando-se viável a construção de pontes de entendimentos entre ambas. A proposta emergente da atualidade indica, até por uma questão de sobrevivência da humanidade, que religiosos e cientistas aprenderão a conviver em paz. Primeiro, porque os religiosos estarão, cada vez mais, livres dos dogmas estatutários. Segundo, porque os cientistas romperão as algemas que os mantêm cativos do primado da razão.

No campo religioso, a Religião responderá afirmativamente às seguintes indagações do famoso escritor francês, destacado filósofo iluminista, François Marie Arouet (1694-1778), mais conhecido como Voltaire:

Não seria aquela mais simples? Não seria aquela que ensinasse muita moral e poucos dogmas? Aquela que tendesse a tornar os homens mais justos sem torná-los absurdos? Aquela que não obrigasse a crer em coisas impossíveis, contraditórias, injuriosas à divindade e perniciosas ao gênero humano? […]. Aquela que só ensinasse a adoração de um Deus, a justiça, a tolerância e a humanidade? 3

No meio científico, a Ciência desenvolverá ações distanciadas do jugo reacionário e cartesiano do culto à razão, introduzido por outro francês de renome, o matemático e filósofo René Descartes (1596-1650). O maior equívoco de Descartes, afirma o professor Antonio R. Damasio, chefe do departamento de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Iowa, USA, foi desenvolver premissas de que mente e corpo são entidades independentes, não relacionadas entre si:

Ainda que Descartes tenha se notabilizado ao propor um método de observação, análise e interpretação dos fatos científicos, condição muito útil para se chegar a conclusões racionais, o método cartesiano oferece graves empecilhos para conceituar Deus, sobretudo a perfectibilidade divina, assim como a riqueza da capacidade de aprender, discernir da mente humana. Nestas condições a educação moderna e as mais recentes conquistas das neurociências demonstram que o cogito (isto é o pensar), só por si, dificilmente poderia constituir um fundamento sólido para o conhecimento. Quer isto dizer que nem sempre o conhecimento e a explicação de certos fatos, por mais evidentes que sejam, se explicam exclusivamente pelo raciocínio. Há outras vias, como a percepção extrassensorial que, a rigor, extrapolam o raciocínio lógico. Nestes termos o cogito não é, pois, garantia suficiente de um conhecimento à prova de erro.

Algo digno de nota é que esse atual direcionamento da pesquisa científica, mesmo em áreas tão estritamente racionais, como a Física e a Matemática, foi admiravelmente percebido por Allan Kardec que, se de um lado, se valeu da metodologia racional para classificar, relacionar e compreender certos fatos espíritas, soube, porém, extrapolar o entendimento racional para discernir a respeito da magnitude das consequências morais que os princípios espíritas trazem em seu bojo: uma proposta renovadora e moralizadora da espécie humana. É por estes e outros motivos que o Espiritismo explica ser possível a aliança entre a Ciência e a Religião:

A Ciência e a religião não puderam entender-se até hoje porque cada uma, encarando as coisas do seu ponto de vista exclusivo, repeliam-se mutuamente. Era preciso alguma coisa para preencher o vazio que as separava, um traço de união que as aproximasse. Esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo, leis tão imutáveis quanto as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres. Uma vez constatadas pela experiência essas relações, fez-se uma nova luz: a fé dirigiu-se à razão, a razão nada encontrou de ilógico na fé, e o materialismo foi vencido. […].5

Estamos, pois, diante de um processo revolucionário, transformador das ideias que atingirá a humanidade de frente.

É toda uma revolução moral que neste momento se opera e trabalha os espíritos. Após uma elaboração que durou mais de dezoitos séculos, chega ela à sua plena realização e vai marcar uma Nova Era para a humanidade. As consequências dessa revolução são fáceis de prever; deve produzir inevitáveis modificações nas relações sociais, às quais ninguém terá força para se opor, porque estão nos desígnios de Deus e resultam da lei do progresso, que é a Lei de Deus.5

Referências

1 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2.  mp. Brasília: FEB, 2013. cap. 1, it. 8, p. 40.

2 KANT, Immanuel. A religião nos limites da simples razão. Trad. Ciro Mioranza. 2. ed. São Paulo: Escala, 2008. cap. I, p. 183, 184 e 185, respectivamente.

3 VOLTAIRE. Dicionário filosófico. Trad. Ciro Mioranza e Antonio Geraldo Silva. São Paulo: Escala, 2008. Verbete: Religião, it. Quinta questão, p. 442.

4 DAMÁSIO, Antônio R. O erro de Descartes. Trad. Dora Vicente Georgina Segurado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. pt. III, it. O Erro de Descartes, p. 279.

5 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. I, it. 8, p. 41.


 


 


 


 


 

 

 

Pilares de sustentação do trabalho voluntário na Casa Espírita

 

 

 

Considerações iniciais

 

O trabalho voluntário na Casa Espírita, além de contribuir para o fortalecimento das forças do bem na humanidade, é uma oportunidade ímpar, disponibilizada à criatura humana para que, de forma consciente e mais constante, se encontre com nosso Pai celestial. Daí a importância de o voluntário, ao abraçar sua tarefa, estar plenamente cônscio da relevância de sua participação, certo de que, em sua atuação, contará com a companhia e assistência do Pai celestial através de sua coorte de anjos.

 

Dessa forma o trabalhador voluntário da seara divina deve envidar todo seu esforço no sentido de honrar esses momentos, assentando sua força de trabalho em pilares que resistam às dificuldades naturais, existentes no terreno onde as sementes do Amor serão plantadas e regadas.

 

1º Pilar: Amor ao próximo, respeito humano

 

O trabalho voluntário na Casa Espírita exige contato permanente com criaturas humanas encarnadas e desencarnadas, situadas nas mais variadas faixas vibratórias de pensamento e comportamento, daí a necessidade de o voluntário ser portador de um aceitável grau de sensibilidade para que possa bem se relacionar com essas pessoas, a fim de não prejudicar os intentos divinos em favor delas. Ao lidar com criaturas humanas nunca esqueçamos que nem sempre estamos tratando com pessoas lógicas, mas sim, na maioria das vezes, com pessoas emocionais.

 

É imprescindível que, no desempenho de sua tarefa, o voluntário guarde estrita vigilância ante as investidas provenientes do plano espiritual inferior, pois as mesmas encontram terreno fértil, para sua semeadura, no lodaçal do orgulho, da vaidade, do melindre, da sede de poder, da ignorância e da fragilidade emocional e moral das pessoas, bem como em outras imperfeições próprias da natureza humana.

 

Assim, tratar bem aqueles com quem nos relacionamos, estimulando-os para o trabalho que desempenham e/ou incentivando- os a superar as dificuldades da jornada, são exemplos que, sempre que possível, devem ser vivenciados pelo trabalhador espírita. Ademais, não custa nada lembrar que, sempre que a oportunidade apareça devemos habitualmente cumprimentar as pessoas, com naturalidade, ser compreensivos, ser solícitos, atenciosos, enfim, educados com o semelhante. Esses “pequenos” gestos muito contribuem para o ajuste da nossa sintonia com o plano espiritual superior que nos assiste.

 

2º Pilar: Fidelidade aos princípios espíritas

 

Em função da natureza do trabalho realizado na Casa Espírita, é fundamental que seu trabalhador voluntário não só tenha conhecimento doutrinário, mas também o abrace e nele tenha fé. Afirmamos que o trabalho espírita é diferente dos demais, porque não leva em consideração somente as necessidades de ordem material da criatura humana, mas, principalmente as mais imediatas. O trabalho sob a égide do Espiritismo também leva em consideração a vida espiritual das pessoas e seu retorno à carne em vidas futuras. Para que essa consciência se firme, de forma mais efetiva na conduta do voluntário, é necessário que saiba o que é reencarnação, quais os princípios que a regem e que a compreenda à luz do Espiritismo; que tenha conhecimento e acredite na comunicabilidade dos Espíritos, em como essa comunicação se processa e que efeitos provoca na vida da criatura humana; que tenha fé em Deus, em sua bondade, misericórdia e justiça, para melhor entender as desventuras com que se deparará ao longo do seu trabalho e que acredite na imortalidade da alma, para citar alguns requisitos básicos necessários a que se guarde fidelidade aos princípios doutrinários espíritas.

 

A falta de conhecimento do que seja o Espiritismo, dos recursos de que dispõe e dos princípios em que se assenta, indubitavelmente levará o voluntário espírita a desenvolver seu esforço de trabalho em direção contrária à que se recomenda a Doutrina Espírita, gerando assim sérios conflitos de identidade na Instituição. Um exemplo funesto dessa ausência de fé e fidelidade às recomendações do autêntico Espiritismo é a realização de práticas estranhas ou exóticas na Casa Espírita.

 

3º Pilar: Convivência fraterna e companheirismo

 

Jesus com seu exemplo nos ensinou que o trabalho na seara divina não dispensa a participação de ninguém que esteja imbuído de boa vontade e sintonizado com os propósitos divinos. Para cumprir sua missão entre nós, Ele se fez acompanhar de discípulos das mais variadas condições sociais e culturais, com destaque para os doze apóstolos que lhe eram mais próximos. Poderia, certamente, cumpri-la sozinho, mas em sua sabedoria optou por partilhá-la com seus irmãos de caminhada e de ideal. Assim deve ser na Casa Espírita, pois todos os que nela se encontram são irmãos que abraçam a mesma fé, dispostos a seguir as recomendações de vida eterna, trazidas pelo Cristo, uns espiritualmente mais amadurecidos que outros, mas todos desejosos de crescimento espiritual.

 

Diante dessa heterogeneidade evolutiva, é natural que em alguns momentos ocorram desencontros de opinião e comportamento, todavia, nesses momentos devemos nos lembrar de que viemos para unir pessoas e não para separá-las. Que o companheiro de espírito mais amadurecido na prática do bem se apresente junto ao mais fragilizado, não para confrontá-lo, mas para, juntos, trabalharem em favor da causa do Cristo, uma vez que os discípulos de Jesus são conhecidos por muito se amarem. Que nosso proceder no desempenho de nossa tarefa seja o de partilha, de companheirismo e de compreensão para com as limitações humanas. Dar asas ao destempero emocional, ao “disse me disse”, à soberba, à arrogância, à exaltação da personalidade, por exemplo, só serve para obstaculizar a efetivação dos propósitos do Espiritismo na humanidade. Os tempos são chegados e esse tempo é o da solidariedade e da fraternidade. Nós, os trabalhadores da última hora, já perdemos muito tempo com os braços cruzados, portanto, temos muito trabalho pela frente.

 

4º Pilar: Amor ao trabalho

 

No exercício de sua tarefa, o trabalhador voluntário da Casa Espírita deve estar imbuído do sentimento de amor ao que faz e não do da obrigação ou da prestação de um favor a alguém, seja encarnado, seja desencarnado. Não esqueçamos que Jesus espera de cada um de nós misericórdia (compaixão) para com a dor e o sofrimento alheio e gestos conscientes de amor ao próximo e não sacrifícios ou mesmo obrigações forçadas de qualquer ordem.

 

A alegria de poder contribuir para a felicidade daqueles que a Providência divina coloca em nosso caminho deve ser a motivação que nos leve a realizar o trabalho voluntário, principalmente na Casa Espírita. Isso exige que eduquemos nossos sentimentos e reavaliemos nossa postura ética (como estamos nos relacionando com nossos semelhantes, principalmente os mais próximos?), moral (que valores tomamos como referência para nossa conduta cotidiana?) e comportamental (nosso comportamento na vida está coerente com o que acreditamos e professamos, como espíritas que somos?). Meditar sobre esses três pontos e esforçar-se, o mais que possível, para vivenciar atitudes coerentes com a proposta divina, referente a cada um deles, é tarefa urgente e inadiável, haja vista a necessidade de adquirirmos o equilíbrio exigido para o trabalho na lida espírita. Sem esse equilíbrio, como enfrentaremos as dificuldades e incompreensões que fatalmente surgirão no decorrer da tarefa? É fundamental que saibamos, adequadamente, nos desviar das pedras que surgirem no caminho, contornando-as ou removendo-as, uma vez que, se elas ali permanecerem, poderão ser motivo de tropeço e até mesmo de queda daqueles que com elas se depararem.

 

5º Pilar: Presença

 

O trabalho espírita, devido às bases em que se assenta e coerente com os fins a que se propõe, em hipótese alguma deve promover a infelicidade de seus agentes. Por isso, quem se dispuser a trabalhar na seara espírita deve planejar bem seu tempo de modo a não se prejudicar na condução de suas outras atividades, fora do Centro, e também para que a tarefa da qual participa no Movimento Espírita não venha a sofrer nenhum tipo de prejuízo. É imperativo que haja tranquilidade e satisfação por parte do trabalhador voluntário, principalmente no desempenho de sua tarefa, e isso só será possível se, dentre outros fatores, houver, no mínimo, um equilíbrio razoável do binômio: trabalho assumido versus tempo disponível à sua realização. Para que esse equilíbrio se estabeleça e o encargo seja satisfatoriamente realizado, se faz necessário administrar bem a ocupação do tempo disponibilizado, uma vez que esse tempo, competentemente distribuído, mesmo sendo pouco, pode gerar frutos mais proveitosos do que os produzidos por alguém muito ocupado com realizações desnecessárias e assumindo atitudes incompatíveis com os propósitos da tarefa e com as finalidades do Espiritismo. Nesse quesito, a assiduidade e a responsabilidade são duas condições que não podem faltar.

 

Conclusão

 

Aos que desejam participar do trabalho voluntário na Casa Espírita e aos que já estão nele integrados deixamos a seguinte mensagem de Francesco, il poverello de Assis:

 

Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível.

Referência: Revista O Reformador, maio de 2015

 



 

As vibrações marianas de maio

e a abolição da escravidão

 

 

 

 

O livro Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, do Espírito Humberto de Campos, destaca farto material sobre os rumos tomados pela reengenharia espiritual visando às conquistas da maturidade da civilização brasileira.

 

De imediato um ponto ressalta aos olhos:

 

[...] A própria princesa Isabel, cujas tradições de nobreza e bondade jamais serão esquecidas no coração do Brasil, viera ao mundo com a tarefa definida no trabalho abençoado da abolição. [...]¹

 

Então, renasce D. Isabel em 29 de julho de 1846, cujo Espírito era marcado por profunda religiosidade. Católica extremosa, mantinha-se fiel às suas crenças, independentemente das críticas que sofria, principalmente pelas liberdades de imprensa.

 

É assim que, em 8 de dezembro de 1868, em romaria, a princesa visita a Basílica de Nossa Senhora da Aparecida, onde em prece promete que daria à imagem da santa uma coroa de ouro, cravejada de diamantes e rubis, e um manto azul ricamente adornado, se ela concretizasse o seu ideal cristão de libertar os escravos do Brasil.

 

Veja, querido leitor, como a força do planejamento reencarnatório, 20 anos antes da abolição, falava mais alto no coração de Sua Alteza…

 

Um ano depois desta promessa religiosa, Bezerra de Menezes lança o seu opúsculo A escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extingui-la sem danos para a nação.2 Repleto de espírito de liberdade, ele inicia o seu abençoado trabalho dirigindo-se Ao Público:

 

As questões sociais, do mesmo modo que as políticas, não podem ser convenientemente resolvidas senão pela discussão. É do choque das ideias que sai a luz da verdade… Esta consideração me deu ânimo e coragem para inscrever o meu obscuro nome no livro glorioso dos que pleiteiam a causa da emancipação. (Op. cit., p. 3.)

 

Discussão aberta, a falange de Ismael, dos dois lados da vida, se movimenta pela boa causa. Aproveitando- se da viagem do imperador Pedro II à Europa, D. Isabel, aos 24 anos, assume pela primeira vez a regência. Neste período, ela sanciona a Lei do Ventre Livre, a 28 de setembro de 1871. Sabia a princesa que seu ato não era ainda o ideal perfeito, mas, inspirada por Ismael, garantia ao país “a extinção gradual do cativeiro, mediante processos pacíficos”, como registra o Espírito Humberto de Campos (Op. cit., p. 160).

 

Novos passos são dados em direção à libertação… Em 3 de janeiro de 1872, o barão de Drummond3 adquiriu as terras da Imperial Quinta do Macaco com o propósito de urbanização e criação do Bairro de Vila Isabel – em uma bela homenagem à nossa Princesa. Para isso foi fundada a Companhia Arquitetônica, com a colaboração de Bezerra de Menezes, sócio neste empreendimento. Ali, naquelas terras, seria criado o Boulevard 28 de Setembro – em clara homenagem à Lei do Ventre Livre –nos moldes da progressista Paris, que desembocaria na Praça 7 de Março – data da criação do Gabinete abolicionista do Visconde do Rio Branco, hoje conhecida por Praça Barão de Drummond. As ruas transversais teriam nomes de abolicionistas.

 

Como se vê, Bezerra de Menezes concentrava e materializava a vontade libertadora do Alto. Faltava pouco, muito pouco, para a realização dos ideais abolicionistas.

 

É, então, que Ismael se reúne com o Cristo – o Senhor de todas as esperanças! – para ouvir suas deliberações: “– Ismael, o sonho da liberdade de todos os cativos deverá concretizar-se agora, sem perda de tempo” – escreve Humberto de Campos (Op. cit., p. 162).

 

Enfim chega o abençoado mês de maio com suas luzes, perfumes e orações, rarefazendo a psicosfera terrestre, como constata o Espírito Humberto de Campos:4

 

[...] as preces da Terra misturam–se com as vibrações do Céu, em homenagem à Mãe do Salvador, no trono de sua virtude e de sua glória. Se o planeta da lágrima se povoa de orações e de flores, há roseiras estranhas, florindo nas estradas prodigiosas do paraíso, nos altares iluminados de outra natureza, e Maria, sob o dossel de suas graças divinas, sorri piedosamente para os deserdados do mundo e para os infelizes dos espaços, derramando sobre os seus corações as flores preciosas de sua consolação. [...]

 

[...] Dos altares terrestres e dos corações que se desfazem nas ânsias cristãs, no planeta das sombras, eleva-se uma onda de amor, em volutas divinas e a Rosa de Nazaré estende aos sofredores o seu manto divino, constelado de todas as virtudes… [...]4

 

Em 3 de maio de 1888, na “Fala do Trono”, a Princesa Regente, no Senado, se posiciona com firmeza sobre a abolição: “Confio em que não hesitarei de apagar do direito pátrio a única exceção que nele figura”. Então, o novo presidente do Conselho de Ministros João Alfredo Correia de Oliveira assegurou a aprovação da Lei 3.353, de 13 maio de 1888. A Princesa Isabel, em estado de êxtase, ratifica a Lei Áurea. Estava feita a vontade do Alto. O Brasil assumia a sua maioridade espiritual. Comenta o Espírito Humberto de Campos, em Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho:

 

[...] Junto do espírito magnânimo da princesa, permanece Ismael com a bênção da sua generosa e tocante alegria. Foi por isso que [José do] Patrocínio, intuitivamente, no arrebatamento do seu júbilo, se arrastou de joelhos até aos pés da princesa piedosa e cristã. [...] (Op. cit., p. 163.)

 

Dias antes, quando se preparava a Lei Áurea e ares benfazejos sopravam pela pátria anunciando que a liberdade não tardaria, surgiu uma subscrição popular, patrocinada pelo professor do Colégio Pedro II, Luis Pedro Drago, 5 para a confecção da pena, de ouro 18 quilates e cravejada de 27 diamantes, que assinaria o magno documento. É assim que políticos, empresários, populares e até escravos fugitivos e alforriados do Quilombo do Leblon colaboraram financeiramente para a materialização da pena que representa o início de um sonho de cidadania e de igualdade. Ela fala de um Brasil que passou a incorporar as massas excluídas. Todos queriam contribuir. No total, nas muitas listas, são mais de três mil assinaturas.

 

É maravilhoso ver na lista nº 84 a assinatura do fundador de Reformador (1883) e da Federação Espírita Brasileira (1884), o fotógrafo português A. Elias da Silva.6 (Ver fotocópia 1.)5 Aliás, era abreviando o nome Augusto (A.) que ele assinava e se apresentava em seu cartão profissional. 6 (Ver fotocópia 2.)7

 

Hoje essa pena se encontra no Museu Imperial de Petrópolis, no Rio de Janeiro.

 

O surpreendente, é que foi dado a um espírita, amigo de Bezerra de Menezes, o professor e político Luis Pedro Drago, para fazer a oferta da pena à Princesa Isabel, acompanhado de um discurso que retratasse todo o sentimento da pátria brasileira. Esse documento, dada a sua beleza e grandeza, foi gravado em uma placa de prata brasonada e se encontra no Museu do Outeiro da Glória.

 

Ressalto ainda que o professor Luis Pedro Drago foi o padrinho de casamento da segunda filha de Bezerra de Menezes, de nome Ernestina (Zizinha), com o Sr. João Mendes, na Igrejinha de São Cristóvão, a 11 de janeiro de 1890, juntamente com o primo do Dr. Bezerra, o engenheiro João Batista de Maia Lacerda, futuro vice-presidente da Federação Espírita Brasileira. Acompanhemos algumas palavras do seu discurso inspiradíssimo:

 

À Vossa Alteza Imperial manda-me o povo agradecido impetrar a graça de aceitar esta pena, como glorioso instrumento histórico e troféu inteiramente popular, a qual deve assinar a lei nº 3.353 de 13 de Maio de 1888, que elimina o nome escravo da nação brasileira! E com ela, Senhora, algumas palavras, que devem recordar sempre a mais brilhante data, que será inscrita entre os acontecimentos de maior vulto da vida política, social e moral de um povo na história da pátria! … E vós, Senhora, a quem a pátria deve o maior cometimento, porque foi ele firmado não só por um princípio altamente religioso, mas ainda eminentemente humanitário, consentireis que o vosso povo vos aclame: D. Isabel, a Redentora. E assim, Senhora, vivereis na história com essa coroa radiante das flores da redenção transpondo desde agora o vestíbulo da glória que vos conduzirá ao templo da Imortalidade. O Orador, Luis Pedro Drago.

 

E, como diz o ditado: “promessa é dívida!”, a Princesa Isabel não deixou de cumprir a sua promessa à Mãe de Jesus, por ter plenamente realizado o seu elevado compromisso reencarnatório. E, assim, em oração, visita o santuário de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, a 6 de novembro de 1888, agradecendo à Virgem as bênçãos da vivência fraterna de todas as raças na Pátria do Evangelho de seu Filho.

 

Referências:

 

1 XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. 34. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 26, O movimento abolicionista.

 

2 MENEZES, Dr. Adolfo Bezerra. A escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extingui-la sem danos para a nação. Typ. Progresso, Rua de Gonçalves Dias, nº 60, Rio de Janeiro, 1869.

 

3 Médium psicógrafo, sonambúlico e de outras espécies. Ele frequentava reuniões espíritas na casa de Bezerra. Ver MENEZES, Bezerra. Loucura sobre novo prisma. 14. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. cap. 2, p. 116.

 

4 XAVIER, Francisco C. Novas mensagens. Pelo Espírito Humberto de Campos. 14. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2014. cap. 12, p. 87 e 88. .

 

5 MILLAN, Cleusa de Souza.; MILLAN, José Henrique. A pena de ouro da Lei Áurea e o elemento servil no Brasil. Prefácio: Martins, Jorge Damas. Rio de Janeiro: Ed. Oficina do Livro, 2013. p. 325, 292, respectivamente.

 

6 Augusto Elias da Silva casou com a Sra. Mathilde Maria das Dores Pinheiro. A Proclama foi lida na capela Imperial, em 21 de maio de 1876 (O Apóstolo, nº 58, 24 de maio de 1876, p. 4, e O Globo, nº 144, 25 de maio de 1876, p. 2).

 

7 KOSSOY, Boris. Dicionário histórico- fotográfico brasileiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. p. 293.

 

 

 

O CÉU E O INFERNO

 

Há 150 anos, o codificador lançava o livro A justiça divina segundo o espiritismo, depois transformado em subtítulo do título definitivo: O céu e o inferno.


Em nosso país, o pioneiro Joaquim Carlos Travassos foi o primeiro tradutor para o português, a partir da quarta edição francesa, no ano de 1875, lançado pela Editora B. L. Garnier. Pela FEB, contamos com a tradução de Manuel Quintão (1904) e, mais recentemente, com a de Evandro Noleto Bezerra (2009).


Essa obra tem valor e importância, em geral, pouco aquilatados. Foi a primeira a descrever a situação da alma no além-túmulo, com base nas comunicações de Espíritos desencarnados.


A compreensão espírita sobre as situações espirituais, apoiada na certeza da imortalidade da alma, como o revela o Espiritismo, desmistifica dogmas das religiões tradicionais. Os ensinos morais do Cristo se fundamentam no Deus Único e com a conotação do evangelista João: “Deus é amor” (I João, 4:8).
Por ocasião do Centenário dessa obra da Codificação, o Espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, escreveu o livro Justiça divina, do qual extraímos o que se segue:


[...] traçamos os despretensiosos comentários contidos neste volume, em torno das instruções relacionadas no livro O céu e o inferno [...] dando continuidade à tarefa de consultar a essência religiosa da Codificação kardequiana [...].1


O ano do Sesquicentenário de O céu e o inferno é uma excelente oportunidade para se estimular a leitura e o estudo dessa notável obra básica.
Entre as muitas dúvidas esclarecidas pelo Espiritismo, aquela bem recorrente: “para onde vou após a morte?” é, seguramente,respondida em O céu e o inferno! 130

REFERÊNCIA:
1 XAVIER, Francisco C. Justiça divina. Pelo Espírito Emmanuel. 14. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2014. Ante Allan Kardec, p. 10.

 








 

 

Sentido Mediúnico

 

Jacobson Sant’Ana Trovão
jacobsonsantanatrovao@gmail.com

Uma das mais notáveis constatações de Allan Kardec, durante a pesquisa que revelou o sistema de vida espiritual no qual estamos envolvidos, foi a faculdade mediúnica inerente ao ser humano, superando o entendimento de que seria um dom concedido a alguns, como até então se imaginava. 159. Médium é toda pessoa que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos. Essa faculdade é inerente ao homem e, por conseguinte,não constitui privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que não possuam alguns rudimentos dessa faculdade. Pode-se, pois, dizer que todos são mais ou menos médiuns. [...]1

O termo médium, para designar tão somente aqueles pelos quais se produzem fenômenos ostensivos de intermediação entre encarnados e desencarnados, acabou por se popularizar e induzir ao limitado entendimento de que a mediunidade pode ou não se manifestar num indivíduo. Com isso, minimizou-se a informação primordial de que todos somos médiuns, o que impediu a análise de todas as consequências de tal afirmativa.

A proposição é: se todos somos médiuns, por que não somos todos intermediários de fenômenos extrafísicos, mesmo que singelos? Alguns responderão que deverá existir compromisso assumido antes da encarnação. O que é verdade, quando nos referimos ao médium produtivo, de efeitos evidentes. Mas, o que é e como identificar o fenômeno mediúnico? Eis o ponto. Normalmente, o termo mediunidade é designativo de psicofonia, psicografia, e outros (ditos fenômenos patentes ou ostensivos), não se considerando outras faculdades, quais as percepções intuitivas e as psicométricas, 2 para mencionar apenas duas, que, por serem corriqueiras, deixamos de percebê-las, manifestando-se emnós de forma inconsciente.

Fenômeno mediúnico é todo fenômeno psíquico ou percepção, cuja fonte é o mundo espiritual. Assim considerado, estamos continuamente envolvidos por fenômenos, causando-os ou sofrendo-lhes os reflexos, sem o percebermos, ou, ao menos, sem considerá-los mediúnicos. Tanto é assim que na questão 459 de O livro dos espíritos temos a observação de que os Espíritos frequentemente nos dirigem.3 E somente podem fazê-lo em função de possuirmos uma faculdade mediúnica atuante, ativa e perceptiva vinte e quatro horas por dia.

Um século depois das excepcionais conclusões de Allan Kardec, contidas em O livro dos médiuns, acerca da dinâmica cerebral, consistente na faculdade mediúnica, Emmanuel, no livro Seara dos médiuns, retoma o assunto e define a mediunidade como um sentido do qual se serve a alma para expressar-se e evoluir, dando novos contornos ao que o Codificador chamou de faculdade, que, em síntese, constituem expressões análogas.

Considerando-se a mediunidade como percepção peculiar à estrutura psíquica de cada um de nós, encontrá-la-emos, nos mais diversos graus, em todas as criaturas. À vista disso, podemos situá-la facilmente no campo da personalidade, entre os demais sentidos de que se serve o Espírito a fim de expressar-se e evolver para a vida superior.4 (Destaque nosso.)

Pelo excerto acima, sentido mediúnico (ou percepção extrassensorial na Parapsicologia) é mais um sentido humano, ao lado do olfato, visão,
audição, paladar e tato. Por esse prisma, de certo modo, podemos compreender porque não percebemos claramente os fenômenos mediúnicos nos quais estamos envolvidos na rua, no trabalho, no lar, em suma, no cotidiano, sejamos espíritas ou não, médiuns ostensivos ou não.

A Ciência demonstra que os cinco sentidos básicos, fisiologicamente, têm uma dinâmica autônoma, ou seja, atuam sem o controle consciente do indivíduo. Somente nos damos conta de um deles quando ocorre uma alteração significativa: é o imperativo do sistema nervoso periférico autonômico. Cada sentido tem uma região no encéfalo que lhe processa as informações recebidas, tanto as do meio externo quanto as do ambiente orgânico. Uma dor súbita, por exemplo, é o sistema nervoso autônomo tornando consciente uma disfunção, que até então era inconsciente ou imperceptível ao enfermo. Uma alteração na luminosidade, um som estridente, o toque numa superfície quente, são outros exemplos, no caso percepções do meio ambiente, que, se não forem de certa intensidade ou por falta de atenção do indivíduo, são captadas pelo sistema nervoso, chegam ao encéfalo, mas passam despercebidos. Tudo isso induz ao entendimento de que com o sentido mediúnico ocorreria o mesmo.

Somente damos a devida atenção ao sentido mediúnico quando algo significativo, ou de certa intensidade, nos aguça a atenção, por exemplo, um processo obsessivo que nos perturbe, consistente numa alteração da emoção, do pensamento ou do comportamento. Na base das obsessões está o contato entre duas mentes. Os pensamentos dos envolvidos se embrenham e surgem intuições, que serão acolhidas em forma de desejos, conforme a tendência do encarnado e do desencarnado. Habituados a não nos vermos como médiuns, não consideramos tais intuições como um fenômeno mediúnico. O mesmo se dá com o pensamento elevado que nos seja inspirado, por exemplo a vontade de praticar a caridade, de perdoar, entre outros, que será ou não percebido e acolhido. Na maioria das pessoas, o sentido mediúnico fica aparentemente velado, para que o livre-arbítrio seja exercido e não haja perturbação emocional, ante a constatação da realidade que as circunda: “[...] embora não se verifique o registro imediato em nossa consciência comum, há conversações silenciosas pelo ‘sem fio’ do pensamento”, 5 é o que Emmanuel afirma, por Chico Xavier.

Portanto, a percepção telepática de sentimentos e desejos entre encarnados e/ou desencarnados somente é possível por termos um sentido mediúnico, consequente de uma mente espiritual. Como, em regra, não somos habituados a observar nossos próprios sentimentos, pensamentos ou desejos, não distinguimos o que é de nossa intimidade, como reflexo de nossa personalidade, do que nos é sugerido psiquicamente por outrem. Isso acaba passando em nossa mente de forma inconsciente, ou seja, agimos automaticamente, crendo que tudo o que nos vem ao pensamento procede de nós mesmos, o que não é verdade. Somente a autorreflexão ou a metacognição – pensar o ato de pensar – é capaz de dar-nos o devido discernimento.

Outra percepção típica do sentido mediúnico é a psicometria, da qual somos dotados, em grau maior ou menor, sem dela termos, normalmente, a mínima consciência. Definimos tal fenômeno pelos dizeres de Ernesto Bozzano, em sua obra Os enigmas da psicometria:

[...] conexão entre o sensitivo e a pessoa ou meio concernente ao objeto “psicometrado” [...]6

Nesse clássico da literatura espírita, verificamos que somos influenciados, dentre outros, pelos ambientes que frequentamos, pelos assuntos que desenvolvemos, pelos objetos que, em função do forte apego a eles por seus antigos possuidores, foram impregnados fluidicamente por suas emoções, e pela presença de encarnados e desencarnados. Lugares, pessoas e objetos captam e emitem energias que são registradas e veiculadas pelos fluidos do ambiente ou pessoais. Em A gênese, Allan Kardec afirma que a qualidade dos fluidos que nos rodeiam depende do sentimento das pessoas e que esses fluidos são permutáveis de forma espontânea, passando de um meio mais concentrado para um menos concentrado:

Os fluidos espirituais atuam sobre o perispírito e este, por sua vez, reage sobre o organismo material com que se acha em contato molecular. [...]7

Quando uma pessoa dotada de maior sensibilidade chega a um lugar, recebe-lhe a influência e a percebe. Se for, por exemplo, um local de constantes orações, será capaz de reconhecer uma atmosfera agradável. São os fluidos do ambiente, formado pelo sentimento das pessoas que ali normalmente frequentam. Contrariamente, se chegar aonde houve um crime, desavenças longamente acalentadas, ódios que culminaram em violência ou suicídio, a sensação será desagradável. Pela lição de Kardec, se o indivíduo não for dotado de sensibilidade mais aguçada, isso não o impedirá de receber a mesma influência, que lhe alcançará o corpo físico pela integração perispiritual, contudo, não será capaz de registar conscientemente o ambiente espiritual, exceto se for de intensidade tal que lhe aguce a atenção, em forma de bem ou mal-estar, segundo sua afinidade. Isso poderá ser de imediato ou em momento posterior. Tais somatizações serão duradouras ou não, conforme o tempo de sintonia com elas, e determinarão, pelo mesmo motivo, saúde ou doença, física ou psíquica.

Segundo Bozzano, intuição e psicometria podem ou não estar associadas. Ou seja, surge uma ideia, se a fonte for externa, será uma intuição, ao sintonizar com a origem da intuição, haverá uma assimilação fluídica, resultando numa sensação ou em um desejo. Dependendo do caso, se isso ocorrer numa sessão mediúnica, desencadeará um transe; no cotidiano, determinará uma conduta.

Para os cinco sentidos conhecidos, possuímos um aparato no encéfalo capaz de captar e processar a imagem, o som, o odor etc., cada qual com uma anatomia funcional específica. Igualmente, para o sentido mediúnico, segundo André Luiz, temos a epífise,8 como a sede de captação das informações do mundo espiritual, a qual, por ser conectada, dentre outros, com os lobos frontais, nos dá o processamento das percepções espirituais, nos limites anteriormente observados, isso variando de pessoa a pessoa em graus infinitos.

Ampliar o conceito de médium é essencial, quando a inconsciência desse sentido ou faculdade induz o homem comum a uma série de desatinos. Mediunidade não se exerce somente em sessões mediúnicas, mas, como exposto acima, no dia a dia. Estudar O livro dos médiuns, para se aprender a viver na plenitude do sentido mediúnico é essencial ao progresso humano. Somente será possível melhorar a qualidade de nossa existência e das nossas relações com encarnados e desencarnados se cogitarmos a existência e prevalência do sentido ou faculdade mediúnica, assim como devemos buscar a melhor qualidade de ver, ouvir, falar e sentir, em termos de espiritualidade superior.

REFERÊNCIAS:

1 KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. 14, it. 159.
2 N.A.: Tecnicamente, pela classificação de Alexander Aksakof, na obra Animismo e espiritismo, intuição e psicometria seriam fenômenos de natureza anímica. Aqui, os tomaremos como mediúnicos, lato sensu, para designar como tal toda e qualquer captação psíquica de intermediação entre o plano material e o espiritual. (Op. cit. v. 1. 6. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Prefácio da edição alemã, p. 24.)
3 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. q. 459.
4 XAVIER, Francisco C. Seara dos médiuns. Pelo Espírito Emmanuel. 20. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2014. cap. 43, p. 146.
5 ____. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 6. imp. Brasília: FEB, 2014. cap. 157, p. 328.
6 BOZZANO, Ernesto. Os enigmas da psicometria: dos fenômenos de telestesia. Trad. Manuel Quintão. 5. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1999. p. 9.
7 KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. 14, it. Qualidade dos fluidos, subit. 18.
8 XAVIER, Francisco C. Missionários da luz. Pelo Espírito André Luiz. 45. ed. 1.imp. Brasília: FEB, 2013. cap. 2.

 

Os valores segundo Paulo e perfil

para os trabalhadores

 

 

 

Em epístola dirigida a Timóteo – orientado por Paulo desde a juventude e mais localizado em Éfeso –, o “apóstolo da gentilidade” tece alguns comentários e propõe recomendações:

Esta afirmação é digna de confiança: Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre fun- ção.1 (I Timóteo, 3:1.)

Mais à frente refere-se também a: “Os diáconos igualmente devem ser dignos [...]”.1 (I Timóteo, 3:8.) Abstraindo-nos da tradução e significação da palavra “bispo”, que podemos compreender como dirigente ou líder, bem como das atribuições do diá- cono, que podemos entender como “ajudante”, cremos seja possível trazer as orientações gerais para o contexto espírita de nossa atualidade.

De início, torna-se oportuna a consideração sobre o jovem Timóteo:
[...] Na mesma noite da chegada, observou a ternura com que Timóteo, tendo pouco mais de treze anos, tomava os pergaminhos da lei de Moisés e os Escritos Sagrados dos Profetas. [...]2 [...]

Tal como em Nea-Pafos, estabeleceram em um casebre muito humilde a sede das atividades de informações e de auxílio. Em lugar de João Marcos, era o pequeno Timóteo quem auxiliava em todos os misteres. [...]2

Paulo valorizou e contou com apoio de jovens, entre eles Timóteo, que veio a ser um de seus seguidores e foi o destinatário da Epístola que ora focalizamos. Nos versículos 3 e 4 da referida Epístola,1 Paulo faz várias recomendações de caráter pessoal e familiar. Todavia, algumas orientações1 são bem gerais e aplicáveis ao trabalho do seareiro do Cristo, por exemplo:


[...] seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; Não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro. Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. [...]

Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça [...]. Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada [...].

[...] devem ser dignos, homens de palavra, não amigos de muito vinho nem de lucros desonestos. Devem apegar-se ao mistério da fé com a consciência limpa. Devem ser primeiramente experimentados [...]. [...]

Os que servirem bem alcançarão uma excelente posição e grande determinação na fé em Cristo Jesus. Escrevo-lhe estas coisas, embora espere ir vê-lo em breve; mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade.1 (I Timóteo, 3:2 a 4; 6 a 10; 13 a 15.) Eis alguns dos valores apresentados por Paulo a Timóteo, que destacamos e relacionamos com o notável exegeta Emmanuel, comentando cartas paulinas. – Sóbrio, prudente, respeitável, amável, pacífico: Ter cuidado consigo mesmo é trabalhar na salvação própria e na redenção alheia. Esse o caminho lógico para a aquisição de valores eternos.3 Guardai-vos das atitudes dos murmuradores irresponsáveis.3 Viver de qualquer modo é de todos, mas viver em paz consigo mesmo é serviço de poucos.4 [...]


E, pautando no bom senso as nossas atitudes mentais, indaguemos de nós mesmos se possuímos bastante elevação para ver, ouvir e compreender- -lhe o espírito glorioso. [...]5 O Evangelho não nos diz que Paulo de Tarso fazia maravlhas, mas que Deus operava maravilhas extraordinárias por intermédio das mãos dele.3

– Devem ser dignos, homens de palavra: [...] segundo os conhecimentos que possuímos, por “acréscimo de misericórdia”, já é tempo de cooperarmos fielmente com Deus, no desempenho de nossa tarefa humilde.6 – Consciência limpa; comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. – Hospitaleiro: A fraternidade pura é o mais sublime dos sistemas de relações entre as almas.5

– Não deve ser apegado ao vinho, ao dinheiro, nem a lucros desonestos: O dinheiro que te vem às mãos, pelos caminhos retos, que só a tua consciência pode analisar à claridade divina, é um amigo que te busca a orientação sadia e o conselho humanitário. Responderás a Deus pelas diretrizes que lhe deres e ai de ti se materializares essa força benéfica no sombrio edifício da iniquidade!3

– Governar bem sua própria família, [...] com toda dignidade:
Antes da grande projeção pessoal na obra coletiva, aprenda o discípulo a cooperar em favor dos familiares, no dia de hoje, convicto de que semelhante esforço representa realização essencial.5 – Não pode ser recém-convertido, deve ser primeiramente experimentado:

Em qualquer posição e em qualquer tempo, estamos cercados pelas possibilidades de serviço com o Salvador. E, para todos nós, que recebemos as dádivas divinas, de mil modos diversos, foi pronunciado o sublime desafio: “E agora por que te deténs?”.3

Prossigo para o alvo. 6 (Filipenses, 3:14.) Quando Paulo escreveu aos filipenses, já possuía vasta experiência de apostolado.6 [...] O convertido de Damasco, no entanto, jamais desanimou, prosseguindo, invariavelmente, para o alvo, que, ainda e sempre, é a união divina do discípulo com o Mestre.6 Quantos aprendizes estarão, atualmente dispostos ao grande exemplo? Espalham-se, em vão, os convites ao sublime banquete, debalde envia Jesus mensageiros aos estudantes novos, revelando a excelência da vida superior. [...]6 – Não se ensoberbece:


Muita vez, superestimando nossos valores, acreditamo- -nos privilegiados na arte da elevação. E, em tais circunstâncias, costumamos esquecer, impensadamente, que outros estão fazendo pelo bem muito mais que nós mesmos.4


Em todas essas situações, na maioria dos casos, quem dá se revela um tanto melhor que todo aquele que não dá, de mente cristalizada na indiferença ou na secura; todavia, para aquele que dá, irradiando o amor silencioso, sem propósitos de recompensa e sem mescla de personalismo inferior, reserva o Plano maior o título de Irmão.6

Somente os que ajuízam, acerca da ignorância própria, respeitando o domínio das circunstâncias que desconhecem, são capazes de produzir frutos de perfeição com as dádivas de Deus que já possuem.3 – Boa reputação perante os de fora: Se é discípulo do Senhor, aproveita a oportunidade na construção do bem. Semeando paz, colherás harmonia; santificando as horas com o Cristo, jamais conhecerás o desamparo.6 Cristo possui embaixadores permanentes em seus discípulos sinceros.3 – Apto para ensinar: Recorda, pois, meu amigo, que podes ser o intermediário do Mestre, em qualquer parte.6

Os valores comentados por Paulo na epístola a Timóteo trazem subsídios para o Movimento Espírita de nossos dias, no tocante à preparação de trabalhadores e dirigentes. São valores que devem merecer o estudo e a reflexão, porque não se trata de requisitos técnicos, mas notadamente humanísticos e, sem dúvida, cristãos.

A nosso ver, são subsídios que podem ser acrescentados às ações fundamentadas na obra Orientação aos órgãos de unificação, em que há, no capítulo “Gestão federativa”, recomendação para “incentivar a preparação e o aperfeiçoamento contínuo de equipes com vistas ao atendimento das necessidades do trabalho federativo e também à renovação de trabalhadores”,7 que se encontra em coerência com a Diretriz 7 – “A capacitação do trabalhador espírita” do “Plano de Trabalho para o Movimento Espírita Brasileiro (2013-2017)”.8

Durante as reuniões das Comissões Regionais do CFN de 2013, dentro da programação de seminário sobre gestão, apresentamos alguns perfis para dirigentes de centros e de trabalhadores da Área Federativa, compatíveis com as orientações de Paulo e os textos aprovados pelo CFN da FEB: conhecimento doutrinário e de compromisso com a prática dos ensinos do Cristo à luz da Codificação Espírita; capacidade de gestão, coordenação de atividades e liderança; visibilidade – com trabalho realizado e já conhecido no Movimento Espírita; vivência na sua base, que é o Centro Espírita; mobilidade – disponibilidade para viagens em função das atividades abrangentes; conhecimento sobre o Movimento Espírita; visão sobre a missão do Espiritismo em suas expressões internacionais; afinidade com o trabalho federativo; dedicação ao trabalho federativo; disposição para um trabalho harmonioso e em equipe; disposição para renúncia a ações de natureza pessoal, privilegiando as atividades institucionais.


Em síntese, as colocações de Emmanuel são pertinentes e oportunas: Os aprendizes da Boa-Nova constituem a instrumentalidade do Senhor. Sabemos que, coletivamente, permanecem todos empenhados em servi- -lo, entretanto, ninguém olvide a necessidade de afinar a trombeta dos sentimentos e pensamentos pelo diapasão do divino Mestre, para que a interferência individual não se faça nota dissonante no sublime concerto do serviço redentor.6

REFERÊNCIAS:

1 BIBLIA DE ESTUDO NVI. KENNETH, Barker (Organizador geral), DONALD, Burdick, et al. (Co-organizadores). São Paulo: Editora Vida, 2003.
2 XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 45. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2014. pt. 2, cap. 4, p. 323 e 326.
3 ____. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 7. imp. Brasília: FEB, 2014. cap. 148, p. 312; cap. 48, p. 111; cap. 74, p. 163; cap. 57, p. 130; cap. 147, p. 310; cap. 48, p. 112; cap. 115, p. 245, respectivamente.
4 ____. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 7. imp. Brasília: FEB, 2014. cap. 123, p. 264; cap. 65, p. 145, respectivamente.
5 ____. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 7. imp. Brasília: FEB, 2014. cap. 54, p. 122; cap. 141, p. 295; cap. 117, p. 248, respectivamente.
6 ____. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 6. imp. Brasília: FEB, 2014. cap. 48, p. 110; cap. 50, p. 113; cap. 163, p. 339-340; cap. 24, p. 62; cap. 127, p. 268; cap. 124, p. 262, respectivamente.
7 EQUIPE SECRETARIA-GERAL CFN (Org.). Orientação aos órgãos de unificação. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. cap. 8, Gestão federativa, it. 3.10, p. 106 a 110.
8 PLANO DE TRABALHO PARA O MOVIMENTO ESPÍRITA BRASILEIRO (2013- 2017). Suplemento de Reformador, ano 131, n. 2.207, fev. 2013.

Antonio Cesar Perri de Carvalho

acperri@gmail.com

 


 

 

 

O livro Desobsessão: 50 anos de bons serviços

 

 

O Espírito André Luiz, após vinte anos de vivência e aprendizado em reuniões mediúnicas aqui na Terra e no plano espiritual, legou-nos pela psicografia do venerável médium Francisco Cândido Xavier o livro Desobsessão, objetivando a que nos tornássemos trabalhadores mais eficientes na sublime tarefa de cooperar no resgate dos irmãos que perambulam alienados no mundo das sombras, prisioneiros de suas fixações mentais flageladoras. Com sua primeira edição em 1964, pela FEB, a obra está completando, neste ano, meio século de prestação de inestimável serviço ao Movimento Espírita brasileiro.

 

Desobsessão é “um livro diferente”;1 um livro técnico permeado de inestimáveis ensinamentos evangélico-doutrinários. Como todo manual, os assuntos são abordados semdigressões, objetivando oferecer noções básicas de como compor, programar, realizar e conduzir uma reunião de desobsessão. Aborda temas que orientam os trabalhadores daquela faina caridosa, desde o despertar até o momento em que se encerra a reunião naquele dia tão especial para encarnados e desencarnados.

 

Este livro é o único manual ditado pela Espiritualidade para se obter com segurança os melhores resultados de uma reunião mediúnica de socorro aos desencarnados. Um recurso didático adotado pela Espiritualidade foi intermear os capítulos com fotos ilustrativas, cuja finalidade é informar pela imagem que a reunião deve transcorrer em ambiente simples e sem aparatos de qualquer natureza. As fotos revelam que seus participantes não portam adornos especiais, não se comportam de modo estranho, não têm atitudes místicas e não praticam rituais, insistindo, dessa forma, em que o Espiritismo não adota recursos exteriores nas atividades espirituais, valendo nesse trabalho, acima de tudo, o amor e o conhecimento adquirido pelo estudo da mediunidade.

 

A origem da prática de socorrer os desencarnados por meio do diálogo nas reuniões mediúnicas nós a encontramos em O livro dos médiuns, de Allan Kardec:

 

Não se pode também combater a influência dos maus Espíritos, moralizando-os? “Sim, mas é o que não se faz e é o que não se deve descurar de fazer, porquanto, muitas vezes, isso constitui uma tarefa que vos é dada e que deveis desempenhar caridosa e religiosamente. Por meio de sábios conselhos, é possível induzi-los ao arrependimento e apressar-lhes o progresso.”2 (Grifo nosso.)

 

A expressão “por meio de sábios conselhos” não sugere quaisquer rituais ou procedimentos exóticos. Allan Kardec sempre reconheceu a essencialidade do diálogo, pois foi por meio dele que decifrou o pensamento dos Espíritos portadores da Terceira Revelação. Os pioneiros da tarefa de atendimento aos Espíritos, imbuídos de boa vontade, mas sem o necessário conhecimento das leis que regem a dinâmica da vida, em especial a lei do progresso, que não dá saltos, traduziram sábios conselhos como doutrinação. Acreditavam que seria suficiente falar ao desencarnado dos princípios doutrinários para que se reformasse intimamente em poucos minutos, mudando sua mentalidade construída ao longo dos séculos. Nada obstante, a boa vontade e a expressão de amor daqueles que doutrinavam geravam resultados, levando em conta sempre o inestimável esforço da Espiritualidade para valorizar as nossas inciativas no sentido do bem, multiplicando as migalhas de caridade que lhes ofertamos.

 

A doutrinação de espíritos sofredores ou inferiores não é uma ilusão, mas uma realidade amplamente constatada. Perguntam algumas pessoas que poder possuímos para doutrinar espíritos. Respondemos: o poder natural que Deus concede a todos os homens que souberem cultivar a fraternidade e as boas intenções. 3 (Grifo nosso.)

 

As casas espíritas, ainda na primeira metade do século XX, não estavam devidamente organizadas para realizar reuniões de desobsessão. Cada uma delas as desenvolvia segundo o entendimento de seus dirigentes, sua cultura e recursos humanos disponíveis, nem sempre devidamente preparados. Além desses fatores a gerarem distorções, havia a ausência do estudo sério e constante da Doutrina Espírita pela grande maioria dos adeptos do Espiritismo.

 

Essa realidade foi plasmada em uma das obras de abnegado estudioso daquela época:

 

Por infelicidade, muitas associações espíritas há, quase exclusivamente compostas de pessoas mais dominadas pelo desejo de presenciarem, nas sessões, as proezas dos Espíritos evocados, ou que se manifestam espontaneamente, do que pelo de adquirirem o conhecimento da vida do Além e a significação e o objetivo da vida corpórea, mediante o estudo metódico e aprofundado dos ensino espíritas, consubstanciados nas obras fundamentais do Espiritismo, que são, essencialmente, a chave do Cristianismo puro, do Cristianismo de Jesus.4 (Grifo nosso.)

 

Cremos que, em razão dessa realidade constrangedora, o autor de Nosso lar resolveu presentear-nos com o livro Desobsessão. Foi o seu autor que introduziu o termo esclarecedor no lugar de doutrinador, o qual não expressa a verdadeira função de quem atende os Espíritos nas reuniões de desobsessão. No capítulo 20 do referido livro, ele orienta que “num grupo [mediúnico] de 14 integrantes, por exemplo, trabalharão dois a quatro médiuns esclarecedores”,1 e no capítulo 24, ressalta a importância que tem aquele irmão nessa grave função, dizendo:

 

Na equipe em serviço, os médiuns esclarecedores, mantidos sob a condução e inspiração dos benfeitores espirituais, são os orientadores da enfermagem ou da assistência aos sofredores desencarnados. [...]

 

Naturalmente que a esses companheiros compete um dos setores mais importantes da reunião.1 (Grifo nosso.)

 

Daí para frente o epíteto doutrinador passou a ser questionado e substituído pelo termo esclarecedor. A valorosa e profícua escritora mineira Suely Caldas Schubert definiu com muita propriedade, não deixando dúvidas quanto ao termo esclarecer aplicado às reuniões de desobsessão:

 

Esclarecer, em reunião de desobsessão, é clarear o raciocínio; é levar uma entidade desencarnada, através de uma série de reflexões, a entender determinado problema que ela traz consigo e que não consegue resolver; ou fazê-la compreender que as suas atitudes representam um problema para terceiros, com agravantes para ela mesma. É levá-la a modificar conceitos errôneos, distorcidos e cristalizados, por meio de uma lógica clara, concisa, com base na Doutrina Espírita e, sobretudo, permeada de amor.5

 

O médico de Nosso lar não somente pretendeu, com o livro em análise, incentivar constituição e sustentação de grupos espíritas devotados à obra libertadora e curativa da desobsessão, mas, também fomentar a criação de grupos mediúnicos, aconselhando que:

 

Cada templo espírita deve e precisa possuir a sua equipe de servidores da desobsessão, quando não seja destinada a socorrer as vítimas da desorientação espiritual que lhe rondam as portas, para defesa e conservação de si mesma.1

 

E ele vem conseguindo esse resultado. Atualmente a grande maioria dos centros espíritas realizam reuniões de desobsessão com simplicidade, disciplina e componentes devidamente preparados para a luminosa tarefa, graças ao livro Desobsessão.

 

Parabéns! Pelos 50 anos de bons serviços prestados no seio de nosso Movimento.

 

 

REFERÊNCIAS:

1 XAVIER, Francisco C.; VIEIRA, Waldo. Desobsessão. Pelo Espírito André Luiz. 28. ed. 6. reimp. Brasília: FEB, 2012. Prefácio, Emmanuel, p. 9; p. 85 e 101; cap. Desobsessão, p. 15, respectivamente.

2 KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 81. ed. 2. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2014. Pt. 2, cap. 23, it. 254, q. 5.

3 PIRES, Herculano. O infinito e o finito. Cap. 22. Disponível em: . Acesso em: 4 ago. 2014.

4 BANAL, Spártaco. Sessões práticas do espiritismo. 7. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. Cap. 7, p. 35.

5 SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão/ /desobsessão. 2. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2014. Pt. 3, cap. 6, p. 175.

 


 

Provas da existência de DEUS

Christiano Torchi

Dois argumentos centrais predominam entre os que negam Deus: o de que não há provas da existência do Criador e o de que, se Ele existisse, não permitiria que o mal campeasse no mundo.
Fazendo coro com as teses materialistas, dizem os defensores desta ideia que nunca viram, ouviram ou tocaram em Deus. Conservam postura semelhante à dos positivistas do século 19, que estudavam a natureza pelos sentidos, pela observação e pela análise:
[...] Tudo o que se afasta dessa ordem de coisas é para eles o desconhecido, o porquê, ao qual renunciam, deliberadamente, pesquisar.1
Alguns adeptos do paradigma materialista sustentam que a formação do universo seria uma combinação fortuita da matéria. Tal hipótese, porém, não resiste à análise crítica da razão e da observação dos fatos.
São tantas as variáveis a influir na formação das coisas que seria impossível, matematicamente, que tudo se originasse de um acidente da natureza:
Uma célula viva é composta de uns vinte aminoácidos que formam uma cadeia compacta; esses aminoácidos, para funcionarem, dependem de cerca de duas mil enzimas  específicas. Biólogos e matemáticos calcularam a probabilidade de que mil enzimas diferentes, portanto a metade do necessário, pudessem juntar-se ao acaso, de modo ordenado, para formar uma célula viva ao longo de uma evolução de bilhões de anos:
a probabilidade de que isto viesse a acontecer é da ordem de 10 elevado a 1.000 contra um. Uma impossibilidade estatística:   vida, portanto, não pode ter surgido por acaso.2

Inúmeras teorias científicas têm sido formuladas na tentativa de decifrar o enigma da origem da vida e da evolução dos seres vivos. A de Michael Behe, professor-adjunto de bioquímica da Universidade de Lehigh, Pensilvânia, EUA, autor de A caixa preta de Darwin, adotou uma proposta mais consentânea com os fatos da natureza: Com base no espantoso progresso das pesquisas, Behe conclui que a célula obedece a uma programação e afirma, corajosamente, que os cientistas não têm mais como se omitir: o ser vivo só pode ser explicado pela Teoria do Planejamento inteligente.

Do estudo bioquímico da célula vem um grito de certeza: “Planejamento!”, nela existe o arranjo intencional das partes.3

Há um consenso de que a convicção da existência de um ser superior, ao qual se dá vários nomes, é inata no ser humano, mesmo naqueles que dizem não acreditar nele. O sentimento intuitivo de Deus é uma das provas da onipresença do Criador, porquanto essa intuição não subsistiria se ali não estivesse presente:
Afirma-se que Deus existe, porque, por assim dizer, “se sente” que existe. A existência de Deus e o sentimento dessa existência são, pois, uma e a mesma coisa. 4
Tal fenômeno é perfeitamente aferível por qualquer pessoa, sobretudo por aquelas que estão em grande sofrimento ou que se deparam com a morte iminente.
A universalização desse sentimento desmente a tese de que a crença na divindade surgiu do nada ou que é somente produto da religião e da cultura. A existência de Deus é um “axioma”, isto é, uma premissa evidente e verdadeira, que independe de demonstração. De acordo com a tradição filosófica, o axioma equivale ao princípio de que, por sua própria dignidade, ou seja, por ocupar um lugar de nobreza e destaque num sistema de proposições, deve ser avaliado como verdadeiro:
[...] Os axiomas são [...] princípios evidentes que constituem o fundamento de toda a Ciência [...] são proposições irredutíveis, princípios gerais aos quais se reduzem todas as outras proposições e nos quais estas necessariamente se baseiam.
[...] possui, por assim dizer, um imperativo que obriga ao assentimento uma vez que seja enunciado e entendido.5
A todo efeito inteligente corresponde uma causa inteligente – eis uma dedução lógica irrefutável –, que mostra a natureza como a assinatura viva do Criador. O universo revela perfeição, harmonia, ordem, precisão… Assim, não se pode dizer que ele surgiu do nada ou criou-se a si mesmo pelas forças cegas do acaso.

Não raro, a crença ateísta se entrelaça com a visão niilista do “morreu, acabou”, a qual estimula as filosofias da loucura,  que “proclamam o gozo e a fuga à razão, ao dever de humanidade, aos princípios do amor, empurrando os jovens e os adultos aos porões das drogas alucinógenas, do sexo [desvairado], dos vícios perturbadores”.6

Se a morte fosse o fim de tudo, os maus ganhariam muito com ela, pois se veriam livres ao mesmo tempo do corpo, da alma e dos vícios:

Em outros termos, equivale a dizer que o materialismo, que proclama o nada para depois da morte, anula toda responsabilidade moral posterior e, por conseguinte, é um estímulo ao mal [...].7
Em parte, essa visão reducionista ganhou força em determinado momento graças a inúmeros fatos que marcaram a história da civilização ocidental, entre eles iniciativas que, desvirtuando os ensinos cristãos e cometendo abusos em nome da fé, forjaram uma teologia ausente das leis naturais. Felizmente, porém, o advento do Consolador prometido por Jesus – o Espiritismo – projetou luz sobre essas e outras questões, modificando as estruturas do conhecimento e abrindo espaço para a restauração do Evangelho de Jesus “que permanecia encarcerado no dogmatismo e asfixiado nos tecidos sombrios da intolerância como da superstição”.8

O paradigma espírita, utilizando-se de metodologia apropriada, abriu campo para a comprovação da imortalidade, da comunicação entre o mundo visível e o invisível, da reencarnação, da evolução, da lei de causa e efeito, da pluralidade dos mundos habitados, entre outros princípios, que corroboram, irrefragavelmente, a existência de uma inteligência suprema a governar o universo, que brinda o ser humano em evolução com ampla margem de liberdade para fazer suas escolhas, dando-lhe a oportunidade de se responsabilizar e aprender com os erros, bem assim gozar das próprias conquistas.

Enfim, o Espiritismo proporciona o “conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba [quem é] de onde vem, para onde vai e por que está na Terra”;9 qual o objetivo da existência e qual a razão da dor e do sofrimento; “um chamamento aos verdadeiros princípios da Lei de Deus e consolação pela fé e pela esperança”.9

Conta-se que famoso inventor, ao completar 70 anos, foi homenageado com um banquete, na presença de inúmeras autoridades e ilustres convidados da comunidade científica de renome. Na ocasião, um repórter perguntou ao laureado cientista o que ele mais admirava na natureza. Fez-se um profundo e expectante silêncio, pois todos ficaram curiosos em ouvir a resposta. Passados alguns segundos, o entrevistado teria respondido, com a maior espontaneidade: “Um pé de capim.

Só Deus sabe fazer um pé de capim…”. Se alguém nos perguntar onde está a prova da existência de Deus, consultemos a lapidar resposta dada pelos Espíritos à mesma questão:
Num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão vos responderá.10

Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. q. 4.

REFERÊNCIAS:

1 DELANNE, Gabriel. O espiritismo perante a ciência. 5. ed. 1. imp. Rio de Janeiro: FEB,  2011. pt. 1, cap. 2, p. 42.
2 NOBRE, Marlene. A vida contra o aborto. Dez perguntas e respostas sobre a origem da vida e a natureza do embrião. São Paulo: Associação Médico-Espírita do Brasil. p. 28.
3 _____. O clamor da vida. Reflexões contra o aborto intencional. São Paulo: FE Editora Jornalística, 2000. p. 70.
4 MORA, J. Ferrater. Dicionário de filosofia. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. t. I, verbete “Deus”, p. 698.
5 ____. ____. t. I, verbete “axioma”, p. 243.
6 FRANCO, Divaldo P. Reflexões espíritas. Pelo Espírito Vianna de Carvalho. Salvador: Leal, 1991. p. 8.
7 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. Introdução, it. Resumo da doutrina de Sócrates e Platão, subit. 9, p. 31.
8 FRANCO, Divaldo P. Reflexões espíritas. Pelo Espírito Vianna de Carvalho. Salvador: Leal, 1991. p. 13.
9 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. 6, it. 4, p. 101.
10 ____. O livro dos espíritos. Trad. Evandro

 


 

Entrevista: Evandro Noleto Bezerra

O aspecto ético, moral e religioso
Evandro Noleto Bezerra é entrevistado sobre os 150 anos de O evangelho segundo o espiritismo e sobre o lançamento bilíngue da 1ª edição da obra. Considera-a básica, o coroamento do vértice do tripé em que se assenta a Doutrina Espírita – seu aspecto ético, moral e religioso

Reformador: A FEB Editora lança agora uma edição bilíngue da primeira edição da obra?

Noleto: Sim. Da mesma forma como sucedeu com O livro dos espíritos, cuja primeira edição diferia substancialmente da edição definitiva de 1860, também a primeira edição do Evangelho da Codificação Espírita, que recebeu de Allan Kardec o título de Imitação do evangelho segundo o espiritismo, sofreu algumas alterações que houvemos por bem destacar por meio de notas de rodapé, à medida que surgiam ao longo da obra.

Embora não alcancem a profundidade nem a abrangência das alterações introduzidas na edição definitiva de O livro dos espíritos, não deixam de refletir o zelo, o cuidado e o empenho do Codificador em aperfeiçoar a sua obra, sobretudo em ordenar os capítulos e reuni-los segundo temática comum com vistas a facilitar a compreensão do leitor e tornar mais agradável e atrativa a sua leitura.
A par disso, a segunda parte do livro contém a reprodução eletrônica (digitalizada) da obra francesa original, tal como surgiu em Paris, em abril de 1864, a fim de que os leitores possam conferir as diferenças existentes entre o texto primitivo e o da 3ª edição da obra, publicada em 1866, revista, corrigida e modificada por Allan Kardec sob o título de O evangelho segundo o espiritismo, versão hoje utilizada no mundo inteiro.
A título de informação complementar, esclarecemos que a segunda edição do Evangelho, publicada em 1865, não passava de cópia idêntica da 1ª edição, exceto quanto ao título, que foi substituído pelo que hoje conhecemos e acompanhado, além disso, do subtítulo parte moral. Para tanto, o leitor poderá confrontar as folhas de rosto da 1ª, 2ª e 3ª edições no final da obra.

Qual a diferença entre a primeira edição e a considerada definitiva?

Quanto às diferenças principais, além do título, já citado, a 1ª edição do livro compõe-se de  5 capítulos, em vez dos 28 que constituem a edição definitiva. Os parágrafos têm numeração corrida, de 1 a 420, o que os diferencia da 3ª edição, cuja numeração inicia e finaliza em cada um deles.
Ao confrontar as duas edições, percebemos que ambas são idênticas até o capítulo XXII, mas incorporando-se como novos os capítulos XXIII e XXVI. O capítulo XXIV da 1ª edição, com algumas modificações, passa a ser o capítulo XXVIII da 3ª edição, com o mesmo título: Coletânea de preces espíritas. É importante destacar que, nesse capítulo, Kardec desenvolve a “Oração Dominical”, versículo a versículo, o que não ocorria na Imitação do evangelho, onde a prece de Jesus foi simplesmente transcrita sem qualquer comentário. Também desaparece o capítulo do livro Máximas Diversas, embora muito do que ali se achava contido fosse incorporado a outros capítulos do livro, notadamente os intitulados Estranha moral e Buscai e achareis, que passaram a fazer parte da edição de 1866 e que não existiam na edição princeps do livro. Outra diferença entre a 1ª e 3ª edições é que os parágrafos são bem mais longos na edição de 1864, em comparação com a de 1866, o que poderia tornar enfadonha a leitura e cansar o leitor, problema resolvido na 3ª edição, onde eles são mais “enxutos” e quase sempre relacionados aos subtítulos que lhes correspondem. Em suma, ao imprimir à 3ª edição uma feição muito mais metódica, ao fundir as matérias contidas em alguns capítulos para formar outros e ao acrescentar mais três capítulos, Allan Kardec enriqueceu o conteúdo da obra, tornando sua leitura e as buscas por determinado assunto muito mais fáceis, providência que, longe de lhe desvirtuar a essência, tornou mais leve e agradável a leitura da mensagem de Jesus, pondo-a ao alcance de todas as inteligências.

Por que Allan Kardec mudou o título da obra?

Conforme palavras suas, exaradas na segunda parte de Obras póstumas, “mais tarde, em razão das reiteradas observações do Sr. Didier [amigo e principal editor de suas obras espíritas], bem como de algumas outras pessoas, mudei-o [o título do livro] para O evangelho segundo o espiritismo”. É possível, e isso não passa de especulação nossa, que tenha pesado na decisão o fato de o vocábulo imitação poder ser considerado uma paródia, uma versão de segunda classe do Evangelho de Jesus, fato que poderia ser aproveitado pelos detratores da Doutrina, sempre à busca de algo para desacreditá-la.

Qual sua sensação ao se deter nas traduções de O evangelho segundo o espiritismo?

A mesma que experimentei ao traduzir a edição histórica de O livro dos espíritos, publicada em 1857, ou seja, mergulhar diretamente na fonte cristalina dos ensinamentos emanados da Espiritualidade superior, enriquecida pelos comentários judiciosos e oportunos de Allan Kardec, ao complementar e desenvolver as passagens inesquecíveis da Boa Nova dentro daquela lógica, daquele espírito de síntese e da objetividade que lhe caracterizam o estilo.
É como se o próprio Cristo, em pessoa, se destacasse das páginas do livro e viesse, uma vez mais, nos conclamar à fraternidade e ao amor incondicional aos semelhantes, tal como sucedeu há dois mil anos na Galileia distante.

Algum capítulo chamou-lhe mais atenção?

É muito difícil destacar um capítulo de outro, tamanha é a importância dos ensinamentos tratados em cada um deles.
Posso apontar os que mais aprecio, sem desmerecer os demais: capítulos VI (O Cristo Consolador); X (Bem-aventurados os que são misericordiosos); XII (Amai os vossos inimigos); XV (Fora da caridade não há salvação); e XVII (Sede perfeitos).

Como você considera este livro no conjunto da Codificação?

Como a obra básica que coroa o vértice do tripé em que se assenta a Doutrina Espírita  seu  aspecto ético, moral e religioso, e também porque, conforme palavras de Allan Kardec, a parte moral do Evangelho de Jesus “é o terreno onde todos os cultos podem reunir-se, a bandeira sob a qual todos podem abrigar-se, quaisquer que sejam suas crenças, porque jamais constituiu matéria das disputas religiosas”, fato que nem sempre está ao alcance dos que só interpretam o Espiritismo à luz da Filosofia ou da Ciência…

Sesquicentenário do Evangelho: qual sua visão para o futuro?

A despeito da violência e das desigualdades sociais ainda presentes na Terra, que a todos nos chocam e envergonham, vejo o futuro com muita fé e otimismo. Tudo indica que passamos por uma fase de transição, em que o nosso planeta será promovido a mundo de regeneração, em que o homem, embora sujeito a vicissitudes das quais só estão isentos os seres completamente desmaterializados e ainda tenha provas a sofrer, já não experimenta as pungentes angústias da expiação. E tudo isso já era previsto 150 anos atrás no capítulo III da Imitação do evangelho segundo o espiritismo…

 


 

 

Bem-aventurados Aspectos de uma interpretação

 

Flávio Rey de Carvalho

Entre as passagens evangélicas mais memoráveis estão as “bem-aventuranças”, proferidas por Jesus no Sermão do Monte:

Bem-aventurados os pobres em espírito [...]. Bem-aventurados os afl itos [...]. Bem-aventurados os mansos [...]. Bem-aventurados os que têm fome e sede da justiça [...]. Bem-aventurados os misericordiosos [...]. Bem-aventurados os limpos de coração [...]. Bem-aventurados os pacifi cadores [...]. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça [...]. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e {mentindo} disserem todo o mal contra vós, por causa de mim.(Mateus, 5:3 a 11.)1

 


      Esses ensinamentos e os demais, que integram o referido Sermão, não constituem um compêndio de regras formais (à semelhança de conjunto de leis civis exteriores) mas, na essência, um novo padrão de conduta pautado pela modificação–a ser dinamizada de dentro para fora – dos sentimentos, da mentalidade e, consequentemente, das atitudes das pessoas. Tais assuntos são parte do “ensino moral” legado por Jesus, cujos princípios formam o “objeto exclusivo” de O evangelho segundo o espiritismo.2 Na obra, há cinco capítulos dedicados às bem-aventuranças: Bem-aventurados os aflitos; Bem-aventurados os pobres de espírito; Bem-aventurados os que têm puro o coração; Bem--aventurados os que são brandos e pacíficos; Bem-aventurados os que são misericordiosos.3

    Os “bem-aventurados” são comumente definidos, do ponto de vista literal, como “felizes” ou “muito felizes”, “alegres”, “merecedores das graças divinas” etc.4 Quando emoldurados pelo contexto das dificuldades terrenas – manifestas em aflições, sofrimentos, perseguições etc. –, tais significados (e, por conseguinte, os ensinamentos a eles associados) podem soar um pouco contraditórios. Todavia, conforme ponderou Allan Kardec, os ensinos morais do Cristo      constituem 
[...] uma regra de proceder que abrange todas as circunstâncias da vida privada e da vida pública, o princípio básico de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça. É, finalmente e acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura [...].5 (Grifo nosso.) 

    Segundo o Codificador, “é a dúvida quanto ao futuro”6 que leva o homem “a procurar suas alegrias neste mundo, satisfazendo às suas paixões, ainda que à custa de seu próximo”.6 Por isso, convém considerar o conjunto de dificuldades, associado por Jesus aos “bem-aventurados”, não sob o ângulo circunsta cial e efêmero da vida física, mas sob o ponto de vista dilatado e pleno da imortalidade da alma. Sob esse viés, as “aflições terrenas”,7 conforme explicou
Kardec, transformam-se nos “remédios da alma”,7 pois “salvam-na para o futuro, como dolorosa operação cirúrgica salva a vida de um doente e lhe restitui a saúde”.7

     Articulado ao princípio da imortalidade da alma está, por conseguinte, o da reencarnação, que é a chave para se compreender a expressão “bem-aventurados”, pois confere a noção dinâmica de processo ao seu significado. Para matizar esse ponto de vista, analisam-se, separadamente, as palavras “bem” e “aventurado”: a primeira, em termos lógicos, pode ser entendida, antiteticamente, como o oposto de mal – aqui identificado, em sua expressão máxima, com a Lei de Amor; já a segunda, pode ser relacionada à ideia de ventura e, desdobradamente, de destino. Sob essa perspectiva, os “bem-aventurados” poderiam ser encarados como Espíritos destinados ao bem, pois as “bem-aventuranças”, proferidas por Jesus no Sermão do Monte, não tinham um caráter “presentista”, mas, conforme interpretou Humberto de Campos, “pareciam dirigidas ao incomensurável futuro humano”.8

     Nesse sentido, um Espírito estará destinado ao bem, tornando-se um “bem-aventurado”, quando adquirir certo grau de amadurecimento e responsabilidade frente ao uso de seu livre-arbítrio. Esse processo de conscientização, associado aos princípios regeneradores da Lei de Causa e Efeito, faculta ao Espírito – mediante a experimentação de provas e expiações reencarnatórias – harmonizar-se, paulatinamente, com a Lei de Amor, cuja força rege e equilibra o universo. Sobre o assunto, Emmanuel esclareceu:
Enquanto a criatura não adquire consciência da própria responsabilidade, movimenta-se no mundo à feição de semirracional, amontoando problemas sobre a própria cabeça.

     Entretanto, acordando para a necessidade da paz consigo mesma, descobre de imediato a cruz que lhe cabe ao próprio burilamento.Encarnados e carnados, jungidos à Terra, vinculam-se todos ao mesmo impositivo de progresso e resgate.9 (Grifo nosso.) Nessa linha de pensamento, o panorama de felicidade, omumente associado aos “bem-aventurados”, adquire matização e perspectiva, pois, segundo Emmanuel:

     Tal como sonhada pelo homem do mundo [...] a felicidade não pode existir, por enquanto, na face do orbe [...].

     Contudo, importa observar que é no globo terrestre que a criatura edifica as bases da sua ventura real, pelo trabalho e pelo sacrifício, a caminho das mais sublimes aquisições para o mundo divino de sua consciência.10 (Grifo nosso.)

     Por isso, os “bem-aventurados” (assim como as “bem--aventuranças”) são indissociáveis da noção de processo.

 



1 DIAS, Haroldo D. (Trad.). O novo testamento.
2.imp. Brasília: FEB, 2013.p. 49.2 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 131. ed. 2. imp.(Edição Histórica.) Brasília: FEB,2013. Introdução, it. 1, Objetivodesta obra.
3 ____, ____. cap. 5, 7, 8, 9 e 10, respectivamente.
4 BOYLER, Orlando. Pequena enciclopédia bíblica. 8. ed. São Paulo:Vida, 2011. p. 110 (verbete “bem-aventuranças”); FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 287 (verbete “bem-aventurado”); HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Minidicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. p. 68 (verbete “bem-aventurado”). Em algumas traduções da Bíblia, é empregada a expressão “felizes” em lugar de “bem-aventurados”. Cf. BÍBLIA: Tradução ecumênica (TEB). São Paulo: Loyola, 1994. p. 1.863; BÍ-
BLIA de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2011. p. 1.710-11; BÍBLIA do peregrino. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2011. p. 2.326.
5 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 131. ed. 2. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2013. Introdução, it. 1, Objetivo desta obra.
6 ____. O espiritismo na sua expressão mais simples e outros opúsculos de Kardec. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2013. Máximas extraídas dos ensinos dos espíritos, it. 39. 
7 ____, ____. it. 40.
8 XAVIER, Francisco C. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 36. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2013. O sermão do monte, cap. 11.
9 ____. Palavras de vida eterna. Pelo Espírito Emmanuel. 34. ed. Uberaba (MG): CEC, 2007. Nossa cruz, cap. 74.
10 ____. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. q. 240.
11 ____. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 36. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2013. O sermão do monte, cap. 11.
12 ____. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 5. imp. Brasília: FEB, 2013. Bem-aventuranças, cap. 89.– aberto ao infinito –, no qual cada Espírito delineia a sua trajetória evolutiva mediante a modificação gradual – dinamizada de dentro para fora – dos seus sentimentos, da sua mentalidade e, consequentemente, das
suas atitudes, afinando-os cada vez mais aos princípios da Lei de Amor contidos no Evangelho. Assim, em termos essenciais, os “bem-aventurados” seriam aqueles Espíritos, encarnados ou desencarnados que, adquirindo consciência da própria responsabilidade, “abandonam as ilusões do mundo para se elevarem a Deus”11 – conforme sintetizou Humberto de Campos. Portanto, segundo consideração feita por Emmanuel: Esse ou aquele homem serão bem-aventurados por haverem
edificado o bem [...] por encontrarem alegria na simplicidade e na paz, por saberem guardar no coração longa e divina esperança.12

 

 

 

 

O direito de viver

Luiz Julião Ribeiro

  É cediço que o ser humano recebe do supremo Dispensador do universo incontáveis recursos naturais que compõem a essência de sua vida.

Entre tais recursos destaca-se o direito de viver como o mais fundamental entre todos, por ser o pressuposto dos demais recursos passíveis de serem usufruídos pelo ser humano.
Antes, porém, de adentrar na análise do tema propriamente dito, para maior clareza desta relevante questão, convém perguntar o que seria mesmo o ser humano ou, por outra, quais são seus componentes.

Ser humano é o ente que resulta da união entre o Espírito e o corpo humano, sendo aquele o ser essencial para o qual a vida humana é o objeto, e este último, o corpo, o ser instrumental, destinado a proporcionar ao Espírito os meios de atingir seus elevados fins: a perfeição. À frente do direito de viver na matéria, pressupõe-se o acesso à vida física, como a mais rica experiência do Espírito numa determinada fase de sua trajetória evolutiva, à semelhança de enorme parcela de Espíritos reencarnados no planeta Terra.

No atual estágio evolutivo da humanidade terrestre, não se pode mais realizar a análise deste tema – o direito de viver –, com o mínimo de profundidade, se não se levar em conta o ser espiritual que anima o corpo humano e que é, sem contradita, o ser real, essencial e o verdadeiro destinatário da vida humana na Terra.

Assim, por meio da indução, somos racionalmente levados à mais elementar conclusão de que a vida terrena não se restringe à mera satisfação das necessidades inerentes ao corpo físico, sob pena de reduzirmos os mais elevados, fundamentais e altruísticos sentimentos e valores humanos a uma quimera a ser decomposta pelas reações químicas num túmulo fétido ou reduzida a cinzas num forno de cremação, em que as mais caras e puras afeições não passariam de momentos fugazes e não valeriam mais do que um apetitoso prato de iguarias, solapando pelas raízes qualquer fio de esperança; reduzindo o ser humano a uma vida de cálculo, sem a menor perspectiva; embrutecendo todas as relações, em que o certo e o errado, o bem e o mal, perderiam qualquer razão de ser.

Por isso, o que levaremos em conta na nossa reflexão será principalmente o Espírito e não o corpo físico, porque nossa singela abordagem será realizada pela ótica eminentemente espírita, apesar do nosso mais profundo respeito a todos os ramos do conhecimento humano, que também oferecem fundamentados argumentos sobre o assunto, principalmente se ventilado sob ótica diferente.

O Espiritismo tem em seu conteúdo, como fonte principal, as revelações feitas pelos Espíritos superiores, encarregados por Jesus Cristo de resgatar o real sentido, a pureza e a simplicidade de sua mensagem divina e confirmá-la, em consonância com os avanços intelectuais, alcançados pela humanidade do nosso tempo. Assim, na questão 880, de O livro dos espíritos, Kardec pergunta aos Espíritos encarregados das revelações:

Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem?
“O de viver. Por isso é que ninguém tem o direito de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal.”


Os Espíritos deixam claro que, ao se tirar a vida de alguém, o mal maior não é o de simplesmente eliminar o fio da vida física, mas os incalculáveis prejuízos decorrentes desse ato, conforme se pode extrair da resposta dada à pergunta 746:

É crime aos olhos de Deus o assassínio?
“Grande crime, pois aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão. Aí é que está o mal.”

Isso se explica porque é fato que todos morreremos um dia, sendo, porém, necessário que a morte ocorra, em qualquer circunstância, no tempo prescrito por Deus, para que o Espírito possa atingir seus objetivos predeterminados a realizar no corpo, usufruindo integralmente dos seus benefícios.

O grau de maturidade moral e intelectual que o homem mediano atingiu na Terra não mais permite conceber que a vida humana seja a manifestação de um fenômeno fortuito, sem objetivo e sem justa causa, por isso é imprescindível e urgente aprofundar a visão.

Na questão 132, pergunta-se aos Espíritos:

Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?
“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da Criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.”

Importa destacar que os Espíritos responderam às perguntas de acordo com o grau de progresso atual da humanidade terrena, pois o planeta Terra encontra-se num grau evolutivo emque a reencarnação do Espírito tem objetivos delimitados e voltados para atender as suas necessidades atuais, razão por que, na questão 167, os Espíritos esclarecem sobre o fim que se objetiva com a reencarnação, nos seguintes termos:

Qual o fim objetivado com a reencarnação?
“Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isto, onde a justiça?”

Assim, quem tem um objetivo, um propósito, uma necessidade de viver na Terra não é o corpo físico, mas o Espírito que o anima e que necessita dar mais um passo na direção do seu aperfeiçoamento. Quando, portanto, se impede que um corpo nasça na Terra, frustram-se os objetivos do Espírito que necessita reencarnar. Para melhor compreensão, lembremos que a Terra, no atual estágio evolutivo, é uma escola, um hospital, uma oficina de trabalho, um campo de pesquisa, uma sagrada oportunidade de convivência social, psicológica e sentimental do mais alto valor para a evolução moral e intelectual do Espírito.

Diante do exposto, impedir um ser humano de nascer é fechar, para o Espírito que deseja e necessita ardentemente aprimorar-se, as portas de acesso ao conhecimento, à saúde, ao trabalho, à convivência social, ao exercício do amor que a vida num corpo físico pode proporcionar.
A propósito, respondendo à pergunta 357, os Espíritos elucidam nos seguintes e precisos termos:

Que consequências tem para o Espírito o aborto?
“É uma existência nulificada e que ele terá de recomeçar.” 

Observamos que o mal decorrente desta ação não se resume em simplesmente impedir a manifestação da vida, por matar um corpo, mas arruinar, comprometer toda uma existência de alvissareiras perspectivas para o Espírito, o que torna a ação muitíssimo mais grave.

Assim, inúmeras consequências poderão advir para os responsáveis pela prática do aborto. Porque é necessário indagar, também, qual será a atitude que adotará o Espírito que é rejeitado, impedido covarde e egoisticamente de exercer o legítimo direito que Deus lhe outorgou. Não se trata de ameaças, mas de convite à responsável reflexão, porque não somos mais uma sociedade de Espíritos primitivos. Temos o dever de assegurar ao outro o direito que nos foi garantido.

Imaginemos uma sociedade que impedisse suas crianças de ter acesso à escola, seus doentes de receber o auxílio hospitalar, seus cidadãos da oportunidade do trabalho dignificante? Por mais passivas que sejam essas criaturas, nada impedirá que gravíssimas e naturais consequências destas atitudes recaiam sobre seus responsáveis, bem como sobre toda a sociedade, não significando de modo algum castigo de Deus, mas reação pura e simples da lei natural de causa e efeito.

Estamos num estágio de evolução, repetimos, em que não mais podemos sequer cogitar de corrigir um mal praticando outro igualmente hediondo e muito mais irracional, cruel e monstruoso, num verdadeiro atestado de incapacidade ou mesmo de má vontade de buscar as soluções pela aplicação do amor ao bem, sob as luzes infinitas da sabedoria, filha direta da inteligência...
Somente conhecendo a natureza, os fins, as causas e os efeitos que regem a vida, seremos capazes de preservá-la, agindo de conformidade com os superiores objetivos do Criador, baseados no amor, na sabedoria e no bem.

Referência:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 1. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2013. q. 132, 167, 357, 746 e 880

 


 

Homenagem de um tradutor a Chico Xavier

ENRIQUE ELISEO BALDOVINO

Sua existência foi um grande exemplo de disciplina, humildade e fidelidade ao dever.
Enfrentou e venceu ingentes lutas, perseguições e testemunhos desde a infância.

Chico Xavier: seu cândido nome foi e é sinônimo de fidelidade ao dever; sua vida é um grande exemplo de disciplina, humildade, solidariedade e compromisso no bem. Enfrentou e venceu ingentes lutas,desafios, perseguições e testemunhos desde a infância – que foi muito árdua e sacrificada –, e nos legou toda uma existência dedicada à prática do amor ao próximo, da caridade vivenciada com o seu comportamento digno e elevada conduta cristã-espírita.

A obra psicográfica de O Mineiro do Século XX e de um dos maiores brasileiros de todos os tempos atinge a extraordinária produção de 412 livros psicografados, dos quais 88 pertencem à FEB Editora. Francisco Cândido Xavier conquistou o mediunato, isto é, cumpriu fielmente a sua missão providencial como médium, tornando- se segura referência mundial no campo da mediunidade luminosa, como grande antena parapsíquica, amparado pelas sábias orientações de Emmanuel, seu venerando guia espiritual.

Livros de Chico Xavier em espanhol

Sendo assim, para homenagear Francisco Cândido Xavier pelo seu grande legado, nós, na condição de tradutor, somente poderíamos fazê-lo com a nossa modesta atividade doutrinária: a tradução de livros espíritas, como irmão de outras terras que somos.

Tivemos a grande honra de traduzir, do português para o espanhol, os excelentes livros intitulados Caminho, verdade e vida (Camino, verdad y vida),1 e Pão nosso (Pan nuestro),2 ambos publicados pela Edicei, em 2010, escritos pelo Espírito Emmanuel através das mãos abençoadas do notável médium.

A Federação Espírita Brasileira (FEB), Casa Mater do Espiritismo no Brasil – Instituição mais do que centenária –, colocou à nossa disposição os originais das primeiras edições especiais de Caminho, verdade e vida e de Pão nosso, donde traduzimos as referidas obras, compostas por nada menos que 180 capítulos cada uma, precedidas por várias citações do Novo testamento, cujos versículos são comentados de forma magistral por Emmanuel que, do Mundo Maior, aborda o seu verdadeiro sentido, extraindo a essência profunda e imortal do Evangelho do Cristo.

Cada uma das citadas versões castelhanas levou seis meses para ser traduzida. Emmanuel é um Espírito muito sábio e suas obras devem ser traduzidas com grande reflexão, cuidado e meditação, porque possui um enorme cabedal de conhecimentos e vivências, erudição exarada em cada frase profunda da sua lavra evangélico-doutrinária. Portanto, ficamos um ano nos debruçando nessas pérolas do Espiritismo, ainda não totalmente interpretadas.

A preciosa Coleção Fonte viva

Com muita sabedoria disse Jesus:“Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João, 14:6). Caminho, verdade e vida foi publicado em 1948. Nos anos posteriores integrou a formosa Coleção Fonte viva – contendo comentários evangélicos e constituída dos seguintes títulos – também editados pela FEB –, que apareceram oportunamente e que citamos a seguir por ordem de lançamento:

Pão nosso (1950), Vinha de luz (1952), Fonte viva (1956) e Ceifa de luz (1978), os quais seguem a mesma disposição já mencionada, isto é, refletindo as lúcidas considerações evangélicas de muitas passagens da Boa Nova do Cristo, (nada menos que 785 versículos analisados na referida Coleção), à luz da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec.

Também, a título de homenagem, elaboramos, no fim das mencionadas traduções, um Índice antroponímico (mais de uma centena de nomes próprios, por ordem alfabética) e um Registro histórico-geográfico (das cidades,regiões, países etc. citados em Caminho, verdade e vida (CVV) e em Pão nosso (PN), com o objetivo de facilitar a localização de todas as personagens evangélicas que aparecem nas obras, bem como dos profundos ensinos que cada uma delas impregna em nossas almas. Realmente, são muitos ensinamentos.

A revista Reformador, há várias décadas, publica uma página dedicada à preciosa Coleção Fonte viva intitulada: Esflorando o Evangelho, que sempre lemos com unção e muita emoção. Os comentários de Emmanuel atingem patamares de excelência e,com a sua inconfundível sabedoria, nos conduzem ao claro entendimento das imorredouras lições de Jesus. Desta excelência, também foi partícipe o médium Chico Xavier, qual instrumento altamente afinado, que permitiu a execução da belíssima melodia da mensagem espiritista.

No mesmo estilo do índice final do original febiano Fonte viva, incluímos também no fim das nossas versões castelhanas uma indicação, por ordem alfabética, dos livros bíblicos citados em CVV e em PN, e um índice de capítulos e versículos do Novo testamento, analisados nas mesmas obras, registrando por ordem numérica crescente todos os capítulos e versículos do Novo testamento, estudados pelo Espírito Emmanuel, e ao lado deles os números dos capítulos e das páginas de Caminho, verdade e vida e de Pão nosso, para que o leitor encontre facilmente as referências evangélicas e os diversos comentários doutrinários, com a já reconhecida qualidade gráfica da Edicei – Editora do Conselho Espírita Internacional.

Os “netos” de Chico Xavier

Finalmente, lembramos emotiva passagem biográfica do nosso querido Chico Xavier, quando, em determinada ocasião, após conversar com um conhecido seu que há muitos anos não via, este recriminou-lhe injustamente por que o Chico ficara solteiro, sem posses, sem filhos, sem netos e se encontra do mesmo jeito que o vira há décadas. Chico, na sua sensibilidade, ficou um pouco triste com as ásperas colocações do seu interlocutor, já que este comprara apartamentos, terras, carros, era pai de vários filhos e avô de muitos netos.

Horas depois, quando o benfeitor Emmanuel perguntou ao Chico a razão da sua tristeza, o médium expôs a conversa com a pessoa que não via desde a juventude, mas Emmanuel, na sua sabedoria, levou o próprio Chico a meditar que, no seu elevado compromisso, ele esposara a Doutrina Espírita, cujos filhos eram seus livros mediúnicos e cujos netos eram as diversas traduções das suas obras para os vários idiomas da Terra... Com as versões acima referidas,temos a alta honra de oferecer o nosso simples tributo à belíssima vida e obra de Chico Xavier, um dos grandes apóstolos da mediunidade com Jesus, de todos os tempos.

Referências:

1XAVIER, Francisco C. Camino, verdad y vida. Por el Espíritu Emmanuel. Trad. Enrique Eliseo Baldovino. Com prólogo, índice antroponímico e registro histórico-geográfico de Caminho, verdade e vida. Brasília:Edicei, 2010.
2_____. Pan nuestro. Por el Espíritu Emmanuel.Trad. Enrique Eliseo Baldovino.Com prólogo, índice antroponímico e registro histórico-geográfico de Pão nosso. Brasília: Edicei, 2010.

 

 


 

 

 

Divaldo comenta o Movimento Você e a Paz

 

Divaldo Pereira Franco comenta, em entrevista, a origem e a evolução do Movimento Você e a Paz e destaca que a proposta tem como objetivo estimular a melhoria moral do homem


Reformador: Como surgiu o Movimento Você e a Paz?

Divaldo: Quando eu completei 70 anos, fazendo uma revisão da atual existência, verifiquei quão pouco havia realizado e pensei nas lições preciosas que o Senhor me concedera até aquele momento. Recordei-me das inúmeras visitas realizadas a casas de detenção, presídios,penitenciárias, no Brasil e no Exterior.
Conversando com reeducandos,constatava que se tornavam bem piores do que quando ali chegaram, em razão das circunstâncias e condições em que viviam.Eu sabia que a grande maioria era o resultado dantesco da ausência de lares, de escolas, de amor, maltratados na infância e atirados ao abismo da miséria moral, além daquela de natureza econômica. Então,ouvi a benfeitora Joanna de Ângelis sugerir-me criar um movimento em favor da paz. Um movimento, porém, que proporcionasse paz interior a cada indivíduo, a fim de que um dia a paz se expressasse no mundo. 
O Movimento iniciou-se em 19 de dezembro de 1998, mas somente foi institucionalizado no ano 2000, com a promulgação da Lei do Município de Salvador de n. 5.819/2000, que instituiu a data no calendário das manifestações cívicas do Município, como dia do Movimento Você e a Paz.

Reformador: Há quantos anos você o promove e em quais cidades?

Divaldo: Inicialmente, visitamos educandários, realizando palestras nas quadras de esportes. Notei,porém, que as pessoas mais atormentadas e mais violentas não compareciam. Resolvi, então, solicitar permissão à Prefeitura para armar palanques nas praças públicas dos bairros mais agitados,anunciando à população a razão do evento, pronunciando conferências e convocando as pessoas a participarem, no dia 19 de dezembro, na Praça da Independência,do evento maior.No começo, era somente em Salvador e seu entorno.
Logo depois,passamos a visitar uma cidade do Interior do Estado (ou de outro Estado)uma vez por mês e, durante o mês de dezembro, os bairros violentos da nossa cidade. Já realizamos o Movimento nas cidades de outros países: Baltimore e Boston (U.S.A.);Coimbra e Lagos (Portugal); Londres (Inglaterra); Paris (França); Viena (Áustria) e Zurique (Suíça).No Brasil: Araguari (MG), Balneário de Camboriú e Concórdia (SC), Duque de Caxias, Miguel Pereira, Nilópolis, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, São Gonçalo e Volta Redonda (RJ), Cruz Alta e Santa Cruz do Sul (RS), Cuiabá (MT), Cascavel e Maringá (PA). No Estado da Bahia: Alagoinhas, Amélia Rodrigues, Bom Jesus da Lapa, Cachoeira, Camaçari,Candeias, Catu, Cruz das Almas,Esplanada, Ilha de Itaparica (Mar Grande), Lauro de Freitas, Madre de Deus,Nazaré, Pojuca, Salvador,Santo Amaro, Santo Antônio de Jesus, São Gonçalo dos Campos,São Sebastião do Passé, Simões Dias e Valente. No momento, acabamos de lançar o nosso Movimento Você e a Paz na ONU, em Nova Iorque, no dia 5 de abril e, em seguida, em Miami, no dia 7 do mesmo mês.

Reformador: No que consiste o programa deste Movimento?

Divaldo: Tudo é muito simples e prático. Às 19h, aproximadamente,chegamos à praça, onde se encontra instalado o palanque preparado com serviço de som e eletricidade,já tendo sido feita a divulgação, graças à cooperação dos espíritas do bairro (ou da cidade). São apresentados alguns números de arte: canto ou música. Convidamos as autoridades locais a que nos honrem com a presença no palco, o nosso mestre de cerimônias elucida sobre o tema, passa a palavra a algum convidado, e eu profiro uma palestra, evitando vinculação religiosa ou política, a fim de que o assunto seja específico sobre a paz, naturalmente utilizando a sublime figura de Jesus,como o Príncipe da Paz.
Ao término, todos cantamos a música de Nando Cordel, Paz pela paz. Ele sempre tem participado conosco nos encontros de 19 de dezembro.No referido ano de 2000, criamos o troféu Você e a Paz, que é oferecido em homenagem à instituição social que promove, a empresa que viabiliza e a personalidade que se doa. Entre os muitos homenageados, destacamos a dra. Zilda Arns, que o recebeu de nossas mãos, em praça pública, dona Canô Veloso (a genitora de Caetano e Maria Betânia), ambas desencarnadas, algumas emissoras de televisão e diversas notáveis instituições que trabalham pela paz. A Federação Espírita do Estado da Bahia coopera conosco através dos vários setores espalhados na cidade e no Interior.

Reformador: Você convida representantes das comunidades civil e religiosa?

Divaldo: Sim. Convidamos, com antecipação, as lideranças civis e religiosas, as classes operárias e laboriosas, os clubes sociais, e quando se fazem presentes, são levados ao palco, incluindo os presidentes dos centros espíritas, que trabalharam no bairro ou na cidade pela divulgação.

Reformador: Tem alguma conotação espírita evidente?

Divaldo: Não tem conotação espírita nem política, evitando fragmentações.

Reformador: Qual fato pitoresco ou histórico gostaria de ressaltar?

Divaldo: O mais extraordinário que tem ocorrido é o apelo das populações visitadas pedindo-nos para voltar ao bairro, porque elas somente convivem com a polícia e os traficantes. Temos recebido apoio de pessoas violentas e traficantes que se modificaram após participarem dos nossos eventos. Em alguns bairros considerados muito perigosos, fomos recebidos com imenso carinho, sem nunca haver ocorrido qualquer incidente lamentável. 

Reformador: Em síntese, qual sua proposta para uma Humanidade mais pacífica?

Divaldo: A nossa proposta para uma Humanidade mais pacífica centraliza-se na transformação moral do indivíduo para melhor, utilizando-nos do conceito de Allan Kardec a respeito do verdadeiro espírita,aquele que opera a modificação interior, sendo sempre mais nobre e lutando sem cessar pela superação das más inclinações.

 


 

Duração das penas futuras

Christiano Torchi

A pena, forma jurídica pela qual o Estado reprime a violação da ordem social, vem sofrendo diversas mutações,à medida que as instituições humanas vão progredindo no decurso do tempo. Atualmente, parece haver um consenso de que a pena deveria ter finalidade pedagógica, não sendo mais viável utilizá-la como instrumento de mera punição ou vingança, como ocorria no pretérito, mas sim como forma de recuperar e reinserir o transgressor na sociedade.

 Em um Congresso Penal e Penitenciário realizado, no ano de 1930, em Praga, capital da antiga Tchecoslováquia, Kellerharls, experimentado diretor de penitenciária,externou um pensamento que antecipou em muitas décadas a preocupação da sociedade contemporânea a respeito da aplicação das penas. Disse ele, na ocasião:

 Devo declarar que jamais encontrei,no curso de minha experiência,um indivíduo verdadeiramente incorrigível. Nos casos em que não logrei a desejada influência sobre o prisioneiro, tive a impressão de que isso decorria de nossa própria culpa, pelo simples fato de não termos sabido encontrar o método adequado para conquistar o prisioneiro com êxito.1

 Atualmente, as leis humanas estabelecem alguns critérios objetivos para quantificar as penas do infrator, entre eles a gravidade da culpa, os antecedentes, a conduta social, a personalidade do agente,os motivos, as consequências e as circunstâncias em que o crime foi cometido, bem como o comportamento da vítima.

 E as leis divinas? Quais seriam os critérios definidores do tempo de duração das penas dos Espíritos? É sabido que, muito acima dos sistemas legais perecíveis dos homens, prevalece a justiça indefectível de Deus. O Criador nunca age por capricho, pois tudo no Universo é regido por leis soberanas e imutáveis que revelam a sabedoria e a bondade divinas. Deus não criou os seres eternamente votados ao mal, razão por que jamais fecha a porta ao arrependimento e à reabilitação do Espírito infrator.

 A duração do sofrimento, decorrente da infração das leis divinas, é determinada pelo tempo necessário ao melhoramento do culpado, que lavra contra si a própria sentença, pois tem como juiz a consciência, na qual estão insculpidas as leis divinas.
 Portanto, o estado de sofrimento e de felicidade é proporcional ao grau de pureza do Espírito.2 À medida que progride, seus sofrimentos diminuem e se modificam. A lei que rege a duração das penas é eminentemente sábia e benevolente, pois subordina essa duração aos esforços ou vontade do próprio Espírito, que sempre conserva o livre-arbítrio para agir dessa ou daquela maneira, de modo que sofre as consequências, boas ou más, de suas escolhas, aprendendo a responsabilizar-se por seus atos.

 Não há como negar a lei do progresso: criados simples e ignorantes, todos os Espíritos devem progredir num tempo mais ou menos longo, por seus méritos. Ou seja, todos se arrependem e se melhoram, passando pelo filtro das reencarnações, que é mecanismo eficiente das leis divinas, as quais sempre oferecem ensejo à reparação do mal cometido, em circunstâncias adequadas às reais necessidades de cada criatura. 

 Ainda que o Espírito pretenda permanecer na maldade e na ignorância, chega um tempo em que ele próprio sente uma irresistível necessidade de sair da escuridão em busca da luz. São os Espíritos de arrependimento tardio. A doutrina das penas eternas, tal qual a do inferno de chamas, prosperou enquanto o temor podia constituir um freio para as criaturas humanas de escasso entendimento intelecto-moral, que faziam de Deus, de seus atributose da vida futura uma ideia muito imperfeita e vaga. À proporção que o Espírito foi adquirindo as luzes do conhecimento e da experiência,passou a compreender melhor os aspectos espirituais.

 As lições deixadas por Jesus constituem um novo paradigma, firmado na crença em um Deus sábio, justo, clemente e amoroso, o qual veio substituir o antigo, baseado na crença em um Deus cruel e vingativo.  Grande parte dos ensinos do Mestre ainda não foi compreendida,porque o progresso moral ocorre de forma lenta e gradativa,a reboque do progresso do intelecto. Devido a essa evolução incipiente dos homens é que Jesus, falando para o futuro, expressou muitas de suas lições por meio de parábolas, que um dia seriam desveladas quando o homem tivesse ampliado sua capacidade de discernimento.

 Ao Espiritismo cabe essa imensa tarefa de levar aos corações sofridos,às almas sedentas de conhecimento,o verdadeiro sentido de certos ensinos de Jesus que,com o advento das luzes da Ciência,podem ser mais facilmente apreendidos pelos homens.

 Imaginar que uma alma possa ser condenada, irremissivelmente, seria o mesmo que admitir que as leis divinas fossem menos benignas e justas do que as leis humanas, as quais estabelecem atenuantes para determinados crimes e instituem um regime de progressão de penas mais severas para penas mais brandas, com fundamento no bom comportamento do infrator.

 Ademais, admitir a existência de sanções eternas seria duvidar da equidade e da perfeição do Criador, visto que tais penas seriam sempre desproporcionais,por pior que fosse o ato cometido numa curta existência física. Se assim fosse, Deus teria falhado ao criar almas, sabendo-as de antemão irrecuperáveis e condenadas ao eterno suplício.

 Nunca é demais relembrar que entre os antigos, a palavra “eternidade” tinha um sentido diferente do que lhe é emprestado na atualidade.Significava um tempo muito longo, mas não perpétuo, como se entende hoje em dia. A rigor, a crença na doutrina das penas eternas conduz ao seguinte dilema: “ou Deus é perfeito, e não há penas eternas, ou há penas eternas, e Deus não é perfeito”.4 Exatamente por isso, o dogma da eternidade absoluta das penas é incompatível com o progresso das almas, pois, se essas progridem, não há razão para impor a elas penas sem-fim.

 No que diz respeito às penas futuras,5 a Doutrina Espírita se baseia nas observações dos fatos e não em teorias preconcebidas. São os próprios Espíritos que vêm do espaço contar aos homens, pelos médiuns, a sua situação feliz ou infeliz, descrevendo em detalhes como se sentem após o decesso físico, à feição de mensageiros
a complementarem os ensinamentos do Cristo sobre esse e outros pontos.

 Os Espíritos da Codificação resumem o “código penal da vida futura” em 33 pontos, os quais são descritos na primeira parte, ao final do capítulo VII, da obra O céu e o inferno, de onde destacamos os seguintes, que dizem respeito à duração das penas infligidas ao Espírito infrator:

 12 – Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração da pena: – a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo ato meritório, segundo o seu valor.

 13 – A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.

 Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao bem.
 Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e anulá-los pela prática do bem. (Grifo nosso.)

 Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando não existe mais; por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa
de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.4
 Em suma, os critérios divinos para a reparação das faltas e a duração das penas respectivas são extremamente justos e proativos, e, ao que tudo indica, estão inspirando os pesquisadores contemporâneos, que têm buscado métodos alternativos eficientes de recuperação do infrator, como,por exemplo, no caso da chamada “justiça restaurativa”6 que, ao mesmo tempo em que dá uma resposta adequada ao comportamento delituoso, também estimula o exercício do perdão por parte do ofendido e abre ao ofensor a oportunidade de se arrepender e de reparar os danos causados pelo crime.


Referências:
 1OLIVEIRA, Delphim Salum de. Pena de morte: sua inutilidade e sua ineficácia.In: Revista do Ministério Público do Estado do Sergipe. ano VII, n. 13, p. 78, 1997.
 2KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. q. 1.003 a 1.009.
 3______. O céu e o inferno. Trad. Manuel Quintão. 2. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. pt. 1, cap. 6.
 4______. ______. pt. 1, cap. 6, it. 15, p. 83; e Código penal da vida futura, p. 100, respectivamente.
 5______. ______. pt. 1, cap. 7, p. 93 a 109.
 6ZEHR, Howard. Trocando as lentes:um novo foco sobre o crime e a justiça.Justiça restaurativa. Trad. Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athena, 2008.p. 280.

 

 

 

 


 

O Espiritismo na sua expressão mais simples

Jorge Brito

150 anos de edição e tradução

Em 15 de janeiro de 1862, era lançada em Paris, pela Livraria Ledoyen e pelo escritório da Revista Espírita, a edição príncipe de 36 páginas, in-18, de Le Spiritisme à sa plus simple expression, exposé sommaire de l’enseignement des esprits et de leurs
manifestations. O Espiritismo em sua mais simples expressão, exposição sumária do ensinamento dos Espíritos e de suas manifestações, obra escrita por Allan Kardec para popularizar o Espiritismo na França, a preço acessível, sem prejuízo das obras básicas.
Custava 15 centavos de franco e os 10 mil exemplares esgotaram-se em três meses. A segunda edição, com o texto definitivo, sairia em maio daquele ano.
Várias outras edições se sucederam, com destaque para a de 1923 pela Livraria de Ciências Psicológicas, de Paul Leymarie, que teve uma tiragem única de 150 mil exemplares.1

O opúsculo está dividido em três capítulos: “Histórico do Espiritismo”, “Resumo do Ensino dos Espíritos” e “Máximas Extraídas dos Ensinos dos Espíritos” e tem como objetivo “dar, num panorama muito sucinto, um histórico do Espiritismo e uma ideia suficiente da Doutrina dos Espíritos, a fim de que se lhe possa compreender o objetivo moral e filosófico”.2

Um fato que merece destaque: das obras de Allan Kardec é a primeira traduzida para o português por Alexandre Canu,3 autorizado pelo próprio autor, a qual foi editada em Paris no ano de 1862 por Va. J. P.Aillaud, Monlon e Cia., livreiros de suas majestades o imperador do Brasil e o rei de Portugal, e impressa na Tip. Rignoux, rua Monsieur-le-Prince,3, sendo esta a terceira edição, logo após a primeira, francesa, e a segunda, em alemão, pelo professor belga Constantin Delhez. O tradutor destaca no Prólogo a importância do Espiritismo e a sua admiração pelo Codificador:
Ainda que pouco versado no estilo português, porém movido da importância do assunto assombroso de que aqui se trata, e que está hoje maravilhando o mundo inteiro, e também da necessidade de espalhá-lo, quanto antes, por toda a parte, não duvidei de traduzir esta obrazinha elementar, já vertida em muitas línguas, a fim de levá-la ao conhecimento dos povos que falam a língua portuguesa, e pô-los em estado de se esclarecerem numa descoberta tão espantosa, por meio das obras especiais do homem eminente que foi o primeiro propagador, e ainda hoje o maior vulgarizador desta ciência sublime, que há certamente de transformar em pouco tempo a humanidade; descansando eu, quanto à tradução, na indulgência daqueles que, nas cousas desta ordem, antes consideram o fundo que a forma. Um trecho do extrato do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, de 23 de setembro de 1863, transcrito pela Revista Espírita, de julho de 1864 (FEB, 2009, p. 289-290, tradução de Evandro Noleto Bezerra), dá conta da presença da tradução de Canu, no Brasil: Constatamos com satisfação que a ideia espírita faz sensíveis progressos no Rio de Janeiro, onde conta expressivo número de representantes, fervorosos e devotados. A pequena brochura O Espiritismo na sua expressão mais simples, publicada em português, muito contribuiu para ali espalhar os verdadeiros princípios da doutrina.
É, também, o primeiro dos livros espíritas do mestre lionês em versão portuguesa integral, anônima, impressa no Brasil em 1866, mais precisamente, na capital de São Paulo, pela Typographia Litteraria, rua do Imperador, 94, com o título: O Espiritismo reduzido a sua mais simples expressão, traduzido do francês, com 36 páginas.

Naquele mesmo ano, Luís Olímpio Teles de Menezes traduziu apenas parte de uma obra de Kardec, ou seja, a “Introdução” de O Livro dos Espíritos, que foi impressa na Tipografia de Camillo de Lellis Masson & C., em Salvador, Bahia.
A Livraria Garnier, no seu Catálogo das Obras Fundamentais da Doutrina Espírita, de 1874, informa que O Espiritismo em sua mais simples expressão foi “já há muito traduzido em português” e, em 1875, registra: “vertido para o português”, tamanho in-4, custando mil réis a brochura de uma provável nova tradução, que ainda não teve nenhum exemplar localizado.
A Federação Espírita Brasileira editou, pela primeira vez, em 1904, O Espiritismo em sua mais simples expressão, a Biografia [parcial] de Allan Kardec, de Henry Sausse, ambos sem nome de tradutor, e a Memória Histórica, formando os três juntos o livro, de 102 páginas, Memória Histórica do Espiritismo, Alguns Dados, Publicação Comemorativa do Centenário de Allan Kardec, Codificador da Doutrina Espírita, impresso pela Tip. Besnard Fréres, rua do Hospício, 1.133, Rio de Janeiro. Com recursos mensais de uma chamada “Caixa de Propaganda”,instituída em 1920 pela Federação Espírita Brasileira, para publicação de folhetos de propaganda da Doutrina Espírita, foram distribuídos em 1921, gratuitamente, 2.469 exemplares5 de O Espiritismo na sua expressão mais simples – Exposição sumária dos ensinos dos espíritos e de suas manifestações –, traduzido por Guillon Ribeiro, reeditado em 1933, também para gratuidade. Outros títulos foram entregues aos leitores nessa mesma condição.

Existem traduções brasileiras modernas dessa obra como a de Dafne R.Nascimento, editada pela Federação Espírita do Estado de São Paulo, a de Salvador Gentile,6 pelo Instituto de Difusão Espírita (IDE), Araras, São Paulo, e a de Joaquim da Silva Sampaio Lobo (In: Iniciação Espírita, Edicel, São Paulo e Brasília).

Esse texto, pioneiro na divulgação do Espiritismo no Brasil, voltou a ser editado pela FEB, em 2007, juntamente com outros opúsculos de Kardec, traduzidos por Evandro Noleto Bezerra. A Edicei – Editora do Conselho Espírita Internacional – tem se responsabilizado pela publicação, em vários idiomas, das obras de Allan Kardec, bem como das psicografadas por Chico Xavier, além de outros autores, cujo catálogo atinge mais de 170 títulos. Em 2009, editou O Espiritismo na sua expressão mais simples, em francês e russo; em 2010, em sueco e espanhol e, em 2011, em finlandês, fato relevante que destaca o papel do Brasil na propagação do Espiritismo pelo mundo.

1BARREIRA, Florentino. Resumo analítico das obras de Allan Kardec. Trad. David Caparelli. São Paulo: Madras Editora, 2003. p. 116.
2KARDEC, Allan. O Espiritismo na sua expressão mais simples... Revista espírita: jornal de estudos psicológicos, ano 5, n. 1, p. 51, jan. 1862. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
3Espírita francês, culto e inteligente, muito convicto, e que viera do materialismo. Kardec chama-o colega. Residiu no Brasil de 1842 a 1845. Em 1863, foi secretário da  Sociedade Parisiense de EstudosEspíritas (SPEE).
4Por sugestão dos confrades Alcindo Terra, Vespasiano Mendes, Eutychio Campos, Ruben Bello, Dirceu de Oliveira, Eduardo Carvalho e Acacio de Lannes. Ver Reformador, ano 38, n. 20, p. 416, out. 1920.
5Relatório da presidência, apresentado à Assembleia Deliberativa na sua Reunião Ordinária de 22 de janeiro de 1922, it. Propaganda. Reformador, ano 40, n. 3, fev. 1922, p. 63.


 

 

 


 

Paternidade responsável

 

Clara Lila Gonzales de Araújo

“E havia certo oficial, cujo filho estava enfermo em Cafarnaum. Ele, ao ouvir que Jesus viera da Judeia para a Galileia, foi até ele e rogava-lhe que descesse e curasse seu filho, pois estava prestes a morrer. [...] O oficial diz para ele: Senhor, desce antes que meu filho morra. Jesus lhe diz: Vai, o teu filho vive. O homem acreditou na palavra que Jesus lhe havia dito e partiu. Ele já estava descendo, quando os servos o encontraram, dizendo que o filho dele vive.” (João, 4:46-47 e 49-51.)1

A belíssima passagem da cura do filho de um oficial em Cafarnaum, narrada por João, destaca importante mensagem a ser refletida por nós, não apenas pela capacidade de Jesus em transmitir energias curadoras - efeito de seu extraordinário poder de agir sobre os fluidos apropriados, capazes de sarar, de forma instantânea, dores e males diversos –, mas pela singularidade da situação vivida por aquele pai que foi ao encontro do Mestre, esperançoso de salvar o filho. Apesar de sua situação de militar régio, que o destacava na sociedade judaica daquela época, não teve dúvidas em procurar Jesus para pedir-lhe ajuda.


O ato qualifica-o como pai amoroso e bom, preocupado com a grave situação familiar, e como homem submisso e cheio de fé na missão providencial do Cristo, certificando-se da grandeza do patrimônio divino, ao testemunhar a redenção do seu amado filho, e da magnitude da graça que havia recebido.


Esse episódio evangélico serve-nos como referência para a análise da lamentável situação espiritual de determinados homens, em desacordo com o expressivo preceito cristão, destacado anteriormente, que abandonam suas responsabilidades junto aos filhos gerados, na maioria das vezes negando a paternidade, afastando-se da parceira e provocando, “[...] naturalmente, em numerosas circunstâncias, o colapso das forças mais íntimas naquela que se viu relegada a escárnio ou esquecimento”.2 Espíritos encarnados que falham como pais, fugindo de suas obrigações no círculo doméstico e renunciando ao compromisso de viver ao lado dos filhos, alguns recém-nascidos, do que sobrevêm inúmeras crises futuras para aqueles que se sentem largados e desprezados por seus genitores, qualquer seja o meio social e econômico em que reencarnem.

A decisão de se querer comprovar a progenitura, por meio de exames da Medicina hodierna que contribuem para o reconhecimento biológico de filiação da criança em desamparo, concede ao filho determinadas vantagens pecuniárias ao ser confirmada a sua descendência, no entanto, tais recursos não invalidam a fraqueza, a negligência e a ignorância moral que são tendências perniciosas cultivadas pelo pai em prejuízo do pequenino ente desprezado. Essas providências médicas e jurídicas, entretanto, nem sempre são utilizadas por certas mães que se constrangem, envergonhadas, e preferem se desvincular de qualquer relacionamento com o agressor, tentando, individualmente, refazer a estabilidade de sua vida social e econômica em benefício do rebento a ser amparado. Mesmo considerando que a companheira prejudicada tenha a liberdade de se empenhar na luta em prol do seu reequilíbrio, é necessário que ela faça “revisão criteriosa do próprio comportamento para verificar até que ponto haverá provocado a agressão moral sofrida”,3 ao ter os elos afetivos rompidos de forma traumática.

Esse delicado assunto nem sempre é avaliado com a preocupação de se buscar soluções éticas e morais que contribuam para o equilíbrio espiritual das partes lesadas. A dor sentida pelos seres relegados ao abandono pode se transformar em procedimentos destoantes de uma vida mental e condição emotiva estáveis. Se alguma coisa se modifica na organização afetiva de um ser humano, ela repercute em todo o indivíduo, influenciando na sua capacidade intelectiva, nas suas atitudes e no seu comportamento. Algumas mães se ressentem tanto do abandono do parceiro que se tornam pessoas depressivas, amargas, sem esperanças; tornam-se irritadas, pouco afetivas e retraídas, e sentem-se desamparadas diante das necessidades filiais. Outras mulheres apegam-se em demasia aos filhos, expressando excesso de afeição e sentimento exagerado de conduta maternal. Além daquelas que, magoadas, negligenciam completamente os cuidados a se ter para com a criança! “[...] Apenas o amor que sabiamente se divide, em bênçãos de paz e alegria para com os outros, é capaz de multiplicar a verdadeira felicidade.”4

De que forma esses temas são tratados pelos autores espirituais?
Alertam-nos os Espíritos superiores sobre os cuidados que a mãe e o pai devem ter para com seus filhos:

É, sem contestação possível, uma verdadeira missão. É ao mesmo tempo grandíssimo dever e que envolve, mais do que o pensa o homem, a sua responsabilidade quanto ao futuro. Deus colocou o filho sob a tutela dos pais, a fim de que estes o dirijam pela senda do bem, e lhes facilitou a tarefa dando àquele uma organização débil e delicada, que o torna propício a todas as impressões. [...] Se este vier a sucumbir por culpa deles, suportarão os desgostos resultantes dessa queda e partilharão dos sofrimentos do filho na vida futura, por não terem feito o que lhes estava ao alcance para que ele avançasse na estrada do bem.5



Muitos jovens, infelizmente, sucumbem, considerando os efeitos desastrosos que surgem da negligência dos pais no encaminhamento de suas vidas terrenas, entre eles o uso pernicioso de bebidas alcoólicas e de drogas ilícitas. Preponderâncias nocivas que são causadoras de graves problemas existentes no mundo, aplicáveis a uma parte da juventude atual, que parece priorizar certos defeitos, tais como: um ceticismo amargo e zombeteiro, transformando-os em homens e mulheres egoístas e indiferentes ao sofrimento alheio, em meio a conflitos de interesses pelas causas materiais, que parecem dominar suas expectativas para o futuro. Sobre o problema, Allan Kardec destaca os resultados da falta da boa educação moral, que consiste  para elena “arte de formar os caracteres”, porquanto “a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos”:

[...] Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. [...] Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.6

Outro gravíssimo problema, entre as várias abordagens que essas questões suscitam, refere-se, especialmente, à irresponsabilidade dos jovens que, desejando viver em desregramento sexual, tornam-se pais imaturos, sem aceitarem a filiação, entregando seus filhos aos avós para que eles os criem e assumam a incumbência de assisti-los em suas necessidades básicas, permitindo-lhes buscar novas e desvairadas experiências juvenis. A mentora Joanna de Ângelis, nobilíssima educadora espiritual, traz à tona essa situação, alertando-nos: 

Habitem ou não os avós no mesmo núcleo, a sua deve ser uma conduta afável, sem interferências diretas no comportamento dos educadores. A sua experiência é-lhes válida, no que diz respeito aos seus compromissos em relação aos demais membros do clã, havendo cessado, ao concluir a educação dos filhos e deixando-os agora assumir os próprios deveres.7

Muitas vezes, pelos descomedimentos de mimos concedidos aos netos, os avós respondem “pelas extravagâncias desses órfãos de pais vivos”.8 Os jovens deveriam arcar com as obrigações ao escolherem os seus parceiros, aceitando, por amor, as lutas árduas e difíceis que travarão para a construção de uma vida a dois, tendo como primeiro dever os cuidados a oferecer ao ser em formação e ter o apoio de seus pais, cuja contribuição não deve ultrapassar os limites da sua condição de familiares e amigos, que compreendem a situação com tolerância e carinho.
Enquanto ignorarmos o alcance dos atos que cometemos, sobretudo os prejudiciais às demais pessoas, e suas consequências em nossos destinos, não conquistaremos melhoria espiritual. O problema é acima de tudo moral, e seremos infelizes enquanto praticarmos o mal.
É preciso fazer a parte que nos cabe para a renovação da sociedade! Indicamos, como providência de máxima relevância para este programa regenerador, o aprofundamento de estudos nas instituições espíritas, contribuindo para que os pais possam ampliar os seus conhecimentos sobre assuntos pertinentes à família e à educação num enfoque essencialmente espírita, à luz do Evangelho de Jesus.

Referências:

1DIAS, Haroldo D. (Trad.) O novo testamento. Brasília: Edicei, 2010.
2XAVIER, Francisco C. Vida e sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 26. ed. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 10, p. 51-52.
3______. ______. p. 53.
4______. ______. Cap. 11, p. 58.
5KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 91. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Q. 582.
6______. ______. Comentário de Kardec à q. 685.
7FRANCO, Divaldo P. Constelação familiar. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2008. Cap. 6, p. 50.
8______. ______. p. 51-52.

 

Fonte:Revista "O Reformador"

Maio 2012

 


 

 

O idealizador, o fundador do Vinha de Luz

 

Por Pedro Vanderlei

 

Pedro Cândido Romero 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Natural de Franca (SP), onde nasceu em 29 de maio de 1928, Pedro veio ainda criança para Londrina, com os pais e irmãos, em busca de uma melhor oportunidade, que a região norte do Paraná ofereceu a tantos imigrantes. Corria o ano de 1938 quando seus familiares chegaram à região.

Em Londrina constituiu família e dedicou-se profissionalmente à área de construção de casas e prédios, destacando-se também por sua participação nas atividades de assistência social, em que se empenhou a vida inteira.


Ele e sua irmã Nair tornaram-se espíritas na década de 1950. Em seguida, Pedro engajou-se na sucursal londrinense da Legião da Boa Vontade, que ajudou muitas pessoas carentes aqui e no Brasil inteiro.


Mais tarde, já integrado nas atividades da União Espírita de Londrina, atualmente Centro Espírita Nosso Lar, foi dirigir o Albergue Noturno Raul Faria Carneiro, situado na Rua Araguaia, na Vila Nova, então departamento do "Nosso Lar". Dirigiu o Albergue por cerca de dez anos ininterruptamente, só deixando essa função quando passou a dirigir o Lar Anália Franco de Londrina, tarefa a que se dedicou nos últimos trinta anos de sua existência, a qual somente foi interrompida pela enfermidade que acabou retirando o amigo do nosso convívio.


Faleceu dia 18 de junho de 2007. À beira do túmulo, pouco antes do sepultamento, Astolfo Olegário de Oliveira Filho prestou a homenagem dos espíritas de Londrina ao confrade Pedro Cândido Romero, lembrando seu trabalho e sua trajetória nas atividades a que se dedicou desde os tempos da L.B.V. até a fundação do Centro de Estudos Espirituais Vinha de Luz, uma das heranças mais valiosas, no campo espírita, deixadas pelo confrade.


De sua família, permanecem entre nós, encarnados, a esposa Acácia, os filhos Celso, Erli, Celi e Marquito, além de netos, sobrinhos e irmãos, aos quais enviamos nosso abraço e votos de muita paz.

 

 

Fonte:http://www.oconsolador.com.br/10/passamento.html

 


 

Crianças Índigo e Cristal

 

Entrevista de Divaldo Pereira Franco ao Programa Televisivo O Espiritismo Responde, da União Regional Espírita – 7ª Região, Maringá, em 21.03.2007.

Espiritismo Responde - Um de seus mais recentes livros publicados tem por título “A Nova Geração: A visão Espírita sobre as crianças índigo e cristal”. Quem são as crianças índigo e cristal? 

Divaldo – Desde os anos 70, aproximadamente, psicólogos, psicoterapeutas e pedagogos começaram a notar a presença de uma geração estranha, muito peculiar.

Tratava-se de crianças rebeldes, hiperativas que foram imediatamente catalogadas como crianças patologicamente necessitadas de apoio médico. Mais tarde, com as observações de outros psicólogos chegou-se à conclusão de que se trata de uma nova geração. Uma geração espiritual e especial, para este momento de grande transição de mundo de provas e de expiações que irá alcançar o nível de mundo de regeneração.

As crianças índigo são assim chamadas porque possuem uma aura na tonalidade azul, aquela tonalidade índigo dos blue jeans (Dra. Nancy Ann Tape).

O índigo é uma planta da Índia (indigofera tinctoria), da qual se extrai essa coloração que se aplicava em calças e hoje nas roupas em geral. Essas crianças índigo sempre apresentam um comportamento sui generis.

Desde cedo demonstram estar conscientes de que pertencem a uma geração especial. São crianças portadoras de alto nível de inteligência, e que, posteriormente, foram classificadas em quatro grupos: artistas, humanistas, conceituais e interdimensionais ou transdimensionais.

As crianças cristal são aquelas que apresentam uma aura alvinitente, razão pela qual passaram a ser denominadas dessa maneira.

A partir dos anos 80, ei-las reencarnando-se em massa, o que tem exigido uma necessária mudança de padrões metodológicos na pedagogia, uma nova psicoterapia a fim de serem atendidas, desde que serão as continuadoras do desenvolvimento intelecto-moral da Humanidade. 

ER – Essas crianças não poderiam ser confundidas com as portadoras de transtornos da personalidade, de comportamento, distúrbios da atenção? Como identificá-las com segurança? 

Divaldo - Essa é uma grande dificuldade que os psicólogos têm experimentado, porque normalmente existem as crianças que são portadoras de transtornos da personalidade (DDA) e aquelas que, além dos transtornos da aprendizagem, são também hiperativas (DTAH), mas os estudiosos classificaram em 10 itens as características de uma criança índigo, assim como de uma criança cristal.

A criança índigo tem absoluta consciência daquilo que está fazendo, é rebelde por temperamento, não fica em fila, não é capaz de permanecer sentada durante um determinado período, não teme ameaças...

Não é possível com essas crianças fazermos certos tipos de chantagem. É necessário dialogar, falar com naturalidade, conviver e amá-las.

Para tanto, os especialistas elegem como métodos educacionais algumas das propostas da doutora Maria Montessori, que criou, em Roma, no ano de 1907, a sua célebre Casa dei Bambini, assim como as notáveis contribuições pedagógicas do Dr. Rudolf Steiner. Steiner é o criador da antroposofia. Ele apresentou, em Stuttgart, na Alemanha, os seus métodos pedagógicos, a partir de 1919, que foram chamados Waldorf.

A partir daquela época, os métodos Waldorf começaram a ser aplicados em diversos países. Em que consistem? Amor à criança. A criança não é um adulto em miniatura. É um ser que está sendo formado, que merece o nosso melhor carinho. A criança não é objeto de exibição, e deve ser tratada como criança. Sem pieguismo, mas também sem exigências acima do seu nível intelectual.

Então, essas crianças esperam encontrar uma visão diferenciada, porque, ao serem matriculadas em escolas convencionais, tornam-se quase insuportáveis. São tidas como DDA ou DTAH. São as crianças com déficit de atenção e hiperativas. Nesse caso, os médicos vêm recomendando, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, a Ritalina, uma droga profundamente perturbadora. É chamada a droga da obediência.

A criança fica acessível, sim, mas ela perde a espontaneidade. O seu cérebro carregado da substância química, quando essa criança atinge a adolescência, certamente irá ter necessidade de outro tipo de droga, derrapando na drogadição.

Daí é necessário muito cuidado.

Os pais, em casa (como normalmente os pais quase nunca estão em casa e suas crianças são cuidadas por pessoas remuneradas que lhes dão informações, nem sempre corretas) deverão observar a conduta dos filhos, evitar punições quando errem, ao mesmo tempo colocando limites. Qualquer tipo de agressividade torna-as rebeldes, o que pode levar algumas a se tornar criminosos seriais. Os estudos generalizados demonstram que algumas delas têm pendores artísticos especiais, enquanto outras são portadoras de grandes sentimentos humanistas, outras mais são emocionais e outras ainda são portadoras de natureza transcendental.

Aquelas transcendentais, provavelmente serão os grandes e nobres governantes da Humanidade no futuro.

As artísticas vêm trazer uma visão diferenciada a respeito do Mundo, da arte, da beleza. Qualquer tipo de punição provoca-lhes ressentimento, amargura que podem levar à violência, à perversidade. 

ER – Você se referiu às características mentais, emocionais dessas crianças. Elas têm alguma característica física própria? Você tem informação se o DNA delas é diferente? 

Divaldo - Ainda não se tem, que eu saiba, uma especificação sobre ela, no que diz respeito ao DNA, mas acredita-se que, através de gerações sucessivas, haverá uma mudança profunda nos genes, a fim de poderem ampliar o neocórtex, oferecendo-lhe mais amplas e mais complexas faculdades. Tratando-se de Espíritos de uma outra dimensão, é como se ficassem enjauladas na nossa aparelhagem cerebral, não encontrando correspondentes próprios para expressar-se. Através das gerações sucessivas, o perispírito irá modelar-lhes o cérebro, tornando-o ainda mais privilegiado.

Como o nosso cérebro de hoje é um edifício de três andares, desde a parte réptil, à mamífera e ao neocórtex que é a área superior, as emoções dessas crianças irão criar uma parte mais nobre, acredito, para propiciar-lhes a capacidade de comunicar-se psiquicamente, vivenciando a intuição.

Características físicas existem, sim, algumas. Os estudiosos especializados na área, dizem que as crianças cristal têm os olhos maiores, possuem a capacidade para observar o mundo com profundidade, dirigindo-se às pessoas com certa altivez e até com certo atrevimento... Têm dificuldade em falar com rapidez, demorando-se para consegui-lo a partir dos 3 ou dos 4 anos. Entendemos a ocorrência, considerando-se que, vindo de uma dimensão em que a verbalização é diferente, primeiro têm que ouvir muito para criar o vocabulário e poderem comunicar-se conosco. Então, são essas observações iniciais que estão sendo debatidas pelos pedagogos. 


ER – Com que objetivo estão reencarnando na Terra? 

Divaldo - Allan Kardec, com a sabedoria que lhe era peculiar, no último capítulo do livro A Gênese, refere-se à nova geração que viria de uma outra dimensão. Da mesma forma que no tempo do Pithecanthropus erectus vieram os denominados Exilados de Capela ou de onde quer que seja, porque há muita resistência de alguns estudiosos a respeito dessa tese, a verdade é que vieram muitos Espíritos de uma outra dimensão. Foram eles que produziram a grande transição, denominada por Darwin como o Elo Perdido, porque aqueles Espíritos que vieram de uma dimensão superior traziam o perispírito já formado e plasmaram, nas gerações imediatas, o nosso biótipo, o corpo, conforme o conhecemos.

Logo depois, cumprida a tarefa na Terra, retornaram aos seus lares, como diz a Bíblia, ao referir-se ao anjo que se rebelara contra Deus – Lúcifer.

Na atualidade, esses lucíferes voltaram. Somente que, neste outro grande momento, estão vindo de Alcione, uma estrela de 3ª. grandeza do grupo das plêiades, constituídas por sete estrelas, conhecidas pelos gregos, pelos chineses antigos e que fazem parte da Constelação de Touro.

Esses Espíritos vêm agora em uma missão muito diferente dos capelinos.

É claro que nem todos serão bons. Todos os índigos apresentarão altos níveis intelectuais, mas os cristais serão, ao mesmo tempo, intelectualizados e moralmente elevados. 

ER – Já que eles estão chegando há cerca de 20, 30 anos, nós temos aí uma juventude que já está fazendo diferença no Mundo? 

Divaldo – Acredito que sim. Podemos observar, por exemplo, e a imprensa está mostrando, nesse momento, gênios precoces, como o jovem americano Jay Greenberg considerado como o novo Mozart. Ele começou a compor aos quatro anos de idade. Aos seis anos, compôs a sua sinfonia. Já compôs cinco. Recentemente, foi acompanhar a gravação de uma das suas sinfonias pela Orquestra Sinfônica de Londres para observar se não adulteravam qualquer coisa.

O que é fascinante neste jovem, é que ele não compõe apenas a partitura central, mas todos os instrumentos, e quando lhe perguntam como é possível, ele responde: “Eu não faço nenhum esforço, está tudo na minha mente”.

Durante as aulas de matemática, ele compõe música. A matemática não lhe interessa e nem uma outra doutrina qualquer. É mais curioso ainda, quando afirma que o seu cérebro possui três canais de músicas diferentes. Ele ouve simultaneamente todas, sem nenhuma perturbação. Concluo que não é da nossa geração, mas que veio de outra dimensão.

Não somente ele, mas muitos outros, que têm chamado a atenção dos estudiosos. No México, um menino de seis anos dá aulas a professores de Medicina e assim por diante... Fora aqueles que estão perdidos no anonimato. 

ER – O que você diria aos pais que se encontram diante de filhos que apresentam essas características? 

Divaldo - Os técnicos dizem que é uma grande honra tê-los e um grande desafio, porque são crianças difíceis no tratamento diário. São afetuosas, mas tecnicamente rebeldes. Serão conquistadas pela ternura. São crianças um pouco destrutivas, mas não por perversidade, e sim por curiosidade.

Como vêm de uma dimensão onde os objetos não são familiares, quando vêem alguma coisa diferente, algum objeto, arrebentam-no para poder olhar-lhes a estrutura.

São crianças que devemos educar apelando para a lógica, o bom tom.

A criança deve ser orientada, esclarecida, repetidas vezes.

Voltarmos aos dias da educação doméstica, quando nossas mães nos colocavam no colo, falavam conosco, ensinavam-nos a orar, orientavam-nos nas boas maneiras, nas técnicas de uma vida saudável, nos falavam de ternura e nos tornavam o coração muito doce, são os métodos para tratar as modernas crianças, todas elas, índigo, cristal ou não.  

 


 

O Aborto na visão Espírita

I – Considerações Doutrinárias

A Doutrina Espírita trata clara e objetivamente a respeito do abortamento, na questão 358 de sua obra básica O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec:

Pergunta – Constitui crime a provocação do aborto, em qualquer período da gestação?

Resposta – “Há crime sempre que transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, por isso que impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando”.

Sobre os direitos do ser humano, foi categórica a resposta dos Espíritos Superiores a Allan Kardec na questão 880 de O Livro dos Espíritos:

Pergunta – Qual o primeiro de todos os direito naturais do homem?

Resposta – “O de viver. Por isso é que ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal”.

Início da Vida Humana

Para a Doutrina Espírita, está claramente definida a ocasião em que o ser espiritual se insere na estrutura celular, iniciando a vida biológica com todas as suas conseqüências. Na questão 344 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec indaga aos Espíritos Superiores:

Pergunta – Em que momento a alma se uns ao corpo?

Resposta – “A união começa na concepção, mas só é completa por ocasião do nascimento. Desde o instante da concepção o Espírito designado para habitar certo corpo a este se liga por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até ao instante em que a criança vê a luz. O grito, que o recém-nascido solta, anuncia que ela se conta no número dos vivos e dos servos de Deus.”

As ciências contemporâneas, por meio de diversas contribuições, vêm confirmando a visão espírita acerca do momento em que a vida humana se inicia. A Doutrina Espírita firma essa certeza definitiva, estabelecendo uma ponte entre o mundo físico e o mundo espiritual, quando oferece registros de que o ser é preexistente à morte biológica.

A tese da reencarnação, que o Espiritismo apresenta como eixo fundamental para se compreender a vida e o homem em tua sua amplitude, hoje é objeto de estudo de outras disciplinas do conhecimento humano que, através de evidências científicas, confirmam a síntese filosófica do Espiritismo: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a Lei.”

Assim, não se pode conceber o estudo do abortamento sem considerar o princípio da reencarnação, que a Parapsicologia também aborda ao analisar a memória extracerebral, ou seja, a capacidade que algumas pessoas têm de lembrar, espontaneamente, de fatos com elas ocorridos, antes de seu nascimento. Dentro da lei dos renascimentos se estrutura, ainda, a terapia regressiva a vivências passadas, que a Psicologia e a Psiquiatria utilizam no tratamento de traumas psicológicos originários de outras existências, inclusive em pacientes que estiveram envolvidos na prática do aborto.

Aborto Terapêutico

O procedimento abortivo é moral somente numa circunstância, segundo O Livro dos Espíritos, na questão 359, respondida pelos Espíritos Superiores:

Pergunta – Dado o caso que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mão dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?

Resposta – “Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.’

(Os Espíritos referem-se, aqui, ao ser encarnado, após o nascimento.)

Com o avanço da Medicina, torna-se cada vez mais escassa a indicação desse tipo de abortamento. Essa indicação de aborto, todavia, com as angústias que provoca, mostra-se como situação de prova e resgate para pais e filhos, que experimentam a dor educativa em situação limite, propiciando, desse modo, a reparação e o aprendizado necessários.

Aborto por Estupro

Justo é se perguntar, se foi a criança que cometeu o crime. Por que imputar-lhe responsabilidade por um delito no qual ela não tomou parte?

Portanto, mesmo quando uma gestação decorre de uma violência, como o estupro, a posição espírita é absolutamente contrária à proposta do aborto, ainda que haja respaldo na legislação humana.

No caso de estupro, quando a mulher não se sinta com estrutura psicológica para criar o filho, cabe à sociedade e aos órgãos governamentais facilitar e estimular a adoção da criança nascida, ao invés de promover a sua morte legal. O direito à vida está, naturalmente, acima do ilusório conforto psicológico da mulher.

Aborto “Eugênico” ou “Piedoso”

A questão 372 de O Livro dos Espíritos é elucidativa:

Pergunta – Que objetivo visa a providência criando seres desgraçados, como os cretinos e os idiotas?

Resposta – “Os que habitam corpos de idiotas são Espíritos sujeitos a uma punição. Sofrem por efeito do constrangimento que experimentam e da impossibilidade em que estão de se manifestarem mediante órgãos não desenvolvidos ou desmantelados.”

Fica evidente, desse modo, que, mesmo na possibilidade de o feto ser portador de lesões graves e irreversíveis, físicas ou mentais, o corpo é o instrumento de que o Espírito necessita para sua evolução, pois que somente na experiência reencarnatória terá condições de reorganizar a sua estrutura desequilibrada por ações que praticou em desacordo com a Lei Divina. Dá-se, também, que ele renasça em um lar cujos pais, na grande maioria das vezes, estão comprometidos com o problema e precisam igualmente passar por essa experiência reeducativa.

Aborto Econômico

Esse aspecto é abordado em O Livro dos Espíritos, na questão 687:

Pergunta – Indo sempre a população na progressão crescente que vemos, chegará tempo em que seja excessiva na Terra?

Resposta – “Não, Deus a isso provê e mantém sempre o equilíbrio. Ele coisa alguma inútil faz. O homem, que apenas vê um canto do quadro da Natureza, não pode julgar da harmonia do conjunto.”

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XXV, a afirmativa de Allan Kardec é esclarecedora: “A Terra produzirá o suficiente para alimentar a todos os seus habitantes, quando os homens souberem administrar, segundo as leis de justiça, de caridade e de amor ao próximo, os bens que ela dá. Quando a fraternidade reinar entre os povos, como entre as províncias de um mesmo império, o momentânea supérfluo de um suprirá a momentânea insuficiência de outro; e cada um terá o necessário.”

Convém destacar, ainda, que o homem não é apenas um consumidor, mas também um produtor, um agente multiplicador dos recursos naturais, dominando, nesse trabalho, uma tecnologia cada vez mais aprimorada.

O Direito da Mulher

Invoca-se o direito da mulher sobre o seu próprio corpo como argumento para a descriminalização do aborto, entendendo que o filho é propriedade da mãe, não tem identidade própria e é ela quem decide se ele deve viver ou morrer.

Não há dúvida quanto ao direito de escolha da mulher em ser ou não ser mãe. Esse direito ela o exerce, com todos os recursos que os avanços da ciência têm proporcionado, antes da concepção, quando passa a existir, também, o direito de um outro ser, que é o do nascituro, o direito à vida, que se sobrepõe ao outro.

Estudos científicos recentes demonstram o que já se sabia há muito tempo: o feto é uma personalidade independente que apenas se hospeda no organismo materno. O embrião é um ser tão distinto da mãe que, para manter-se vivo dentro do útero, necessita emitir substâncias apropriadas pelo organismo da hospedeira como o objetivo de expulsá-lo como corpo estranho.

Conseqüências do Aborto

Após o abortamento, mesmo quando acobertado pela legislação humana, o Espírito rejeitado pode voltar-se contra a mãe e todos aqueles que se envolveram na interrupção da gravidez. Daí dizer Emmanuel (Vida e Sexo, psicografado por Francisco C. Xavier, cap. 17, ed. FEB): “Admitimos seja suficiente breve meditação, em torno do aborto delituoso, para reconhecermos nele um dos fornecedores das moléstias de etiologia obscura e das obsessões catalogáveis na patologia da mente, ocupando vastos departamentos de hospitais e prisões”.

Mulher e homem acumpliciados nas ocorrências do aborto criminoso desajustam as energias psicossomáticas com intenso desequilíbrio, sobretudo, do centro genésico, implantando nos tecidos da própria alma a sementeira de males que surgirão a tempo certo, o que ocorre não só porque o remorso se lhes estranha no ser mas também porque assimilam, inevitavelmente, as vibrações de angústia e desespero, de revolta e vingança dos Espíritos que a lei lhes reservava para filhos.

Por isso compreendem-se as patologias que poderão emergir no corpo físico, especialmente na área reprodutora, como o desaguar das energias perispirituais desestruturadas, convidando o protagonista do aborto a rearmonizar-se com a própria consciência.

No Reajuste

Ante a queda moral pela prática do aborto não se busca condenar ninguém. O que se pretende é evitar a execução de um grave erro, de conseqüências nefastas, tanto individual como socialmente, como também sua legalização. Como asseverou Jesus: “Eu também não te condeno; vai e não tornes a pecar.” (João, 8:11.)

A proposta de recuperação e reajuste que o Espiritismo oferece é de abandonar o culto ao remorso imobilizador, a culpa autodestrutiva e a ilusória busca de amparo na legislação humana, procurando a reparação, mediante reelaboração do conteúdo traumático e novo direcionamento na ação comportamental, o que promoverá a liberação da consciência, através do trabalho no bem, da prática da caridade e da dedicação ao próximo necessitado, capazes de edificar a vida em todas as suas dimensões.

Proteger e dignificar a vida, seja do embrião, seja da mulher, é compromisso de todos os que despertaram para a compreensão maior da existência do ser.

Agindo assim, evitam-se todas as conseqüências infelizes que o aborto desencadeia, mesmo acobertado por uma legalização ilusória. “O amor cobre a multidão de pecados”, nos ensina o apóstolo Pedro (I Epístola, 4:8).

II – Considerações Legais e Jurídicas

Alteração do Código Penal

Tramita no Congresso Nacional Projeto de Lei que altera o Código Penal Brasileiro, nos seus artigos 124 a 128, elaborado por uma comissão especialmente criada com esse fim, e que já recebeu a acolhida do Ministério da Justiça e da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

O Código vigente, Decreto-Lei 2.848, de 7-12-1940, pune o aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento (art. 124), o aborto provocado por terceiro (art. 125), o aborto provocado com o consentimento da gestante (art. 126), e prevê formas qualificadas em caso de superveniência de lesões graves ou morte da gestante (art. 127). No art. 128, expressa não ser punível o aborto praticado por médico: “(...) II – Se a gravidez resultante de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal”, além, claro, daquele autorizado para salvar a vida da gestante (inciso I).

O anteprojeto de alteração do Código Penal Brasileiro vai além, em especial no seu artigo 128, com a ampliação de sua área de abrangência, ou seja, permitindo a prática do aborto: a) não só quando houver perigo de vida à gestante, mas também para, em caráter amplo, “preservar a saúde” da mulher (inciso I), ou b) não só em razão da gravidez originada de estupro, mas também quando a gravidez for resultado da “violação da liberdade sexual ou do emprego não consentido de técnica de reprodução assistida” (inciso II) e c) quando houver fundada probabilidade de o nascituro apresentar graves e irreversíveis anomalias físicas ou mentais, mediante constatação e atestado afirmado por dois médicos (inciso III).

Dada a gravidade da questão, eis que as alterações propostas ampliam a descriminalização do aborto e implicam o poder de decidir sobre a vida de um ser humano já existente e em desenvolvimento no ventre materno, oferecendo à gestante inúmeras alternativas legais, não há como permanecer em silêncio, sob a pena de conivência com um possível procedimento que, frontalmente, fere o direito à vida, cuja inviolabilidade tem garantia constitucional. À vista dessas propostas, é necessário que se dê ênfase à responsabilidade assumida por todos quantos participem da perpetração do ato criminoso, desde a atividade legislativa e sua promulgação, convertendo em lei o leque abrangente da prática do abortamento, até quem o autoriza, com ele consente e o executa.

Vale notar que existem outros projetos de lei no Congresso sob o mesmo enfoque e, recentemente, o Sr. Ministro da Saúde, através de Norma Técnica, procurou antecipar a prática de procedimentos abortivos no sistema SUS.

O Direito À Vida

O direito à vida é amplo, irrestrito, sagrado em si e consagrado mundialmente. No que tange ao direito brasileiro, a “inviolabilidade do direito à vida” acha-se prevista na Constituição Federal (artigo 5º “caput”), o primeiro entre os direitos individuais, quando essa lei básica, com ênfase, dispõe sobre os direitos e garantias fundamentais.

O ser humano, como sujeito de direito no ordenamento jurídico brasileiro, existe desde a sua concepção, ainda no ventre materno. Essa afirmativa é válida porque a ciência e a prática médica, hoje, não têm dúvida alguma de que a criança existe desde quando fecundado o óvulo pelo espermatozóide, iniciando-se, aí, o seu desenvolvimento físico. Tanto correta é essa afirmativa que, no ordenamento jurídico brasileiro, há a previsão legal de que “a personalidade civil do homem começa pelo nascimento com vida, mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro” (artigo 4º do Código Civil – grifou-se). Entre esses direitos está, além daqueles que ostentem caráter meramente econômico ou financeiro, o primeiro e o mais importante deles, vale dizer, o direito à vida.

Surge, aqui, uma conclusão: a de que a determinação de respeito aos direitos do nascituro acentua a necessidade legal, ética e moral de existir maior e quase absoluta limitação da prática do abortamento. Uma exceção, apenas, há: quando for constado, efetivamente, risco de vida à gestante.

Essa limitação quase absoluta da permissibilidade do abortamento, com a exclusão da responsabilidade tão-somente no caso do inciso I do artigo 128 do atual Código Penal (risco de vida à gestante), afasta, moralmente, a possibilidade do abortamento em virtude do estupro (constrangimento da mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça), embora permitido no inciso II do dispositivo legal em tela. Isso porque, analisando-se o fato à luz da razão e deixando de lado, por ora, os reflexos do ato, na gestante, estar-se-ia executando autêntica pena de morte em um ser inocente, condenado sem que tivesse praticado qualquer crime e – o que se afigura pior e cruel -, sem que se lhe facultasse o direito de defender-se, direito esse conferido,legalmente e com justiça, até àqueles acusados dos crimes os mais hediondos.

Eis a razão do grito de repúdio ás propostas de alteração do Código Penal pátrio e, conseqüentemente, do alerta em defesa da vida, já que, no caso do abortamento, o destinatário do direito a ela se acha impossibilitado de exercê-lo. E mais: penalizam-se duas vítimas, a mãe que se submeterá ao abortamento, cuja prática pode gerar conseqüências físicas indesejáveis, além das de ordem psicológica, e o filho, cuja vida é interrompida, enquanto que o agressor, muitas vezes, remanesce impune, dadas as dificuldades que ocorrem, geralmente, na apuração da autoria do crime cometido.

Diante dessa situação, deve ser preservada a vida da criança como dádiva divina que é não obstante as circunstâncias que envolveram a sua concepção. Se, contudo, a mãe não se sentir com estrutura psicológica para aceitar um filho resultante de um ato sexual indesejado, a atitude que se afigura correta e justa é que se promova sua adoção por outrem, oferecendo-se a ele um lar onde possa ser criado e educado, enquanto é desenvolvido trabalho para reequilíbrio da mãe, com a superação (ainda que lenta e dolorosamente, mas saudável para seu crescimento moral, social e espiritual) dos efeitos nocivos do crime de que foi vítima. Não será, evidentemente, o sacrifício de um ser sem culpa, que desabrocha para a vida, que resolverá eventuais traumas da infeliz mãe, sem falar na possibilidade de sofrer ela as conseqüências físicas e psicológicas já referidas, além do reflexo negativo de natureza espiritual.

Há necessidade urgente de que se tenha consciência do crime que se pratica quando se interrompe o curso da vida de um ser. Não importa se, como no caso, esse curso esteja em sua fase inicial. Não se pode, conscientemente, acobertá-lo com o manto de questionável “legalidade”,

Cabe a cada um de nós amar a vida e dignificá-la, tanto quanto cabe aos homens públicos e, principalmente, aos legisladores e governantes criar as condições necessárias para que o respeito à vida e aos direitos humanos (inclusive do nascituro), a solidariedade e a ajuda recíproca sejam não só enunciados, mas praticados efetivamente, certos, todos, de que, independentemente da convicção religiosa ou doutrinária de cada um, não há dúvida de que somos seres criados por Deus, cujas Leis, entre elas, a maior, a Lei do Amor, regem nossos destinos.

Espera-se que, como resultado deste alerta que o quadro social está a sugerir, possa ser vislumbrada a gravidade contida nas alterações legislativas propostas. É urgente e necessário que todas as consciências responsáveis visualizem, compreendam e valorizem o cerne do problema em questão – o direito à vida -, somando-se, em conseqüência, àqueles muitos que, em todos os segmentos da sociedade, o defendem intransigentemente.

A análise e as conclusões aqui expostas, como decorrência lógica do pensamento espírita-cristão sobre o aborto, representam contribuição à ética, à moral e ao direito do ser humano à vida. Não há, no contexto desta mensagem, a pretensão de que todos que a lerem aceitem os princípios do Espiritismo. Espera-se, todavia, confiantemente, que haja maior reflexão sobre tão importante assunto, notadamente ante a observação de que conquistas científicas e médicas atuais, comprovando de forma irrefutável a existência de um ser desde a concepção com direito à vida, oferecem esclarecimentos e razões que orientam para que se evite qualquer ação, cujo significado leve à agressão à vida do ser em formação no útero materno. Afigura-se, assim, de suma importância qualquer manifestação de repúdio aos propósitos da alteração legislativa referida. Esse o objetivo desta mensagem.

Enquanto nós, os homens, cidadãos e governantes, não aprendermos a demonstrar amor sincero e acolhimento digno aos seres que, de forma inocente e pura, buscam integrar o quadro social da Humanidade, construindo, com este gesto de amor, desde o início, as bases de um relacionamento realmente fraternal, não há como se pretender a criação de um ambiente de paz e solidariedade tão ansiosamente esperado em nosso mundo.

Não há como se pretender que crianças, jovens e adultos não sejam agressivos, se nós os ensinamos com o nosso comportamento, logo de início, e até legalmente, a serem tratados com desamor e com violência.

Amor à Vida! Aborto, não!

(Este texto – O aborto na visão espírita – aprovado pelo Conselho Federativo Nacional em sua Reunião Ordinária de 13 a 15 de novembro de 1999, em Brasília, constitui o documento que a FEB está levando, como esclarecimento, à consideração das autoridades do Governo Federal, do Congresso Nacional e do Poder Judiciário. As Entidades Federativas estaduais, por sua vez, realizam o mesmo trabalho junto aos Governadores, Deputados Estaduais, Prefeitos, Vereadores, outras autoridades e ao público em geral, em seus Estados.)

Fonte: Revista Reformador, Nº 2051

Fevereiro de 2000

 


 

 

STF declara que aborto de feto sem cérebro não é crime

Para ministros que votaram a favor, bebês que nascem com a má-formação não têm expectativa de vida e, portanto, não se trata de aborto.

Por oito votos a dois, os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram que grávidas de fetos anencéfalos poderão optar por interromper a gestação sem cometer um crime. Até agora, o Código Penal brasileiro previa a possibilidade de aborto apenas no caso de risco à saúde da mãe e gravidez, que resultou de estupro.

Assim que a decisão do Supremo Tribunal Federal for publicada, a interrupção da gravidez de feto sem cérebro poderá ser solicitada nos hospitais da rede pública e particular. No julgamento, que durou dois dias, oito dos dez ministros entenderam que as mulheres têm o direito de decidir se querem ou não levar a gestação de anencéfalo até o fim.

“Quem quiser assumir sua gravidez até as últimas consequências mesmo sabendo portador de um feto anencéfalo que o faça”, diz o ministro do STF, Carlos Ayres Britto.

Para os ministros que votaram a favor da ação, os bebês que nascem com esse tipo de má-formação não tem expectativa de vida e, portanto, não se trata de aborto.

“Nós não estamos autorizando práticas abortivas. Não estamos com esse julgamento legitimando a prática do aborto essa é outra questão que eventualmente poderá ser submetida a apreciação desta corte em outro momento”, fala o ministro do STF, Celso de Mello.

Último a votar e contra a ação, o presidente do Tribunal, ministro Cézar Peluso, afirmou que a vida humana não pode ser relativizada. “A alegação de que a morte possa correr no máximo algumas horas após o parto em nada altera a conclusão segundo a qual atestada a existência de vida em certo momento nenhuma consideração futura é forte o bastante para justificar a deliberada interrupção”.

Assim que saiu a decisão no Supremo, o governo federal anunciou que vai dar o suporte necessário para garantir que as mulheres que quiserem interromper a gravidez de anencéfalo possam fazer o procedimento na rede pública. O Ministério da Saúde informou que 65 hospitais em todo o país já estão preparados e outros 30 serão qualificados.

 

Fonte: Jornal O Globo

Edição 12/04/2012

Geiza Duarte/Brasília


 

Anencéfalo e abortamento

Ricardo Di Bernardi

Inicialmente, lembramos que anencéfalo, embora seja considerado sem cérebro, na realidade é portador de um segmento cerebral estando faltante regiões do cérebro que impossibilitarão sua sobrevivência pós parto.

Afim de colocarmos a visão espírita sobre este importante problema exemplificaremos com um caso real. Usaremos nomes fictícios. João e Maria, eram casados há 2 anos. A felicidade havia batido à sua porta. Maria estava grávida. Exultantes procuraram o médico Obstetra para as orientações iniciais. Planos mil ambos estabeleceram. Ao longo dos meses, no entanto, foram surpreendidos , através do estudo ultrassonográfico, da triste notícia de que seu bebê era anencéfalo. Ao serem informados caíram em prantos ao ouvirem a proposta do obstetra lhes oferecendo o abortamento. Posicionaram-se contrários explicando sua visão espírita.

-- Trata-se de um ser humano que renasce precisando de muito amor e amparo. Nós estaremos com nosso filho (a) até quando nos for permitido.

-- Mas, esta criatura não vai viver além de alguns dias ou semanas na incubadora disse o obstetra.

-- Estamos cientes, mas até lá seremos seus pais.

Guardavam, também, secretamente, a esperança de que houvesse algum equívoco de diagnóstico que lhes proporcionasse um filho saudável.

Durante nove meses dialogaram com seu bebê, intra-útero. Disseram quanto o (a) amavam. Realizaram, semanalmente, a reunião do Evangelho no Lar, solicitando aos mentores a proteção e amparo ao ser que reencarnava.

Chegara o grande momento : Em trabalho de parto, Maria adentra a maternidade com um misto de esperança e angústia. A criança nasce; o pai ao ver o filho sofre profundo impacto emocional tendo uma crise de lipotímia. O bebê anencéfalo sobrevive na incubadora com oxigênio, 84 horas. Há um triste retorno ao lar.

Passam-se aproximadamente 2 anos do pranteado evento. João e Maria, trabalhadores do instituto de cultura espírita de sua cidade freqüentavam na mencionada instituição, reunião mediúnica quando uma médium em desdobramento consciente informa ao coordenador do grupo:

-- Há um espírito de uma criança que deseja se comunicar.

-- Que os médiuns facilitem o transe psicofônico para a atendermos - responde o dirigente.

Após alguns segundos, uma experiente médium dá a comunicação:

-- Boa noite, meu nome é Shirley venho abraçar papai e mamãe.

-- Quem é seu papai e sua mamãe ?

-- São aqueles dois - disse apontando João e Maria.

-- Seja bem vinda Shirley, muita paz! que tens a dizer ?

-- Quero agradecer a papai e mamãe todo o amor que me dedicaram durante a gravidez, sim, eu era aquele anencéfalo.

-- Mas você está linda agora.

-- Graças as energias de amor recebidas, graças ao Evangelho no Lar, que banharam meu corpo espiritual durante todo aquele tempo.

-- Como se operou esta mudança ?

-- Tive permissão para esta mensagem pelo alcance que a mesma poderá ter a outras pessoas. Eu possuía meu corpo espiritual muito doente, deformado pelo meu passado cheio de equívocos. Fui durante nove meses envolvida em luz . Uma verdadeira cromoterapia mental que gradativamente passou a modificar meu corpo astral (perispírito). Os diálogos que meus pais tiveram comigo foram uma intensa educação pré-natal que muito contribuíram para meu tratamento. Eu expiei, no verdadeiro sentido da palavra. Expiar é como expirar, colocar para fora o que não é bom . Eu drenei as minhas deformidades perispirituais para meu corpo físico e fui me libertando das minhas deformidades. Como meus pais foram generosos. Meu amor por eles será eterno.

-- Por que estás na forma de uma criança, já que te expressas tão inteligentemente ?

-- Por que estou em preparo para o retorno. Dizem meus instrutores que tenho permissão para informar. Meus pais tem o merecimento de saber. Devo renascer como filha deles, normal, talvez no próximo ano.

Após dois anos renasceu Shirley, que hoje é uma linda menina de olhos verdes e cabelos castanhos, espírito suave e encantador.

Fraternalmente,

Ricardo Di Bernardi

Fonte: Portal do Espírito

www.espirito.org.br

 


 

 

 

Deus precisa de nós 

 

 

 

 

 


     João, no Apocalipse, legou-nos esta revelação: – “No início o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. O mundo foi feito por Ele e o mundo não o conheceu. Ele veio ao que era seu e os seus não o reconheceram e antes lhe tiraram a vida: Jesus!”.

 

 

 

 

 

     Pretender que Deus construa Sistemas e Galáxias, em número infinito e passe a reger todo o Universo, e ainda por cima ocupar-se de julgar cada uma de suas criaturas, como Salomão sentado em seu trono, é fazer uma ideia bastante ridícula e acanhada de um Deus que, na verdade, não sabemos como seja. Não é um Espírito ou uma Entidade, como supomos. Antes, um fluido, que tudo interpenetra, e do qual se origina a Vida. É desse fluido ou princípio vital que se formam os corpos celestes, sob rigoroso controle de seres que, um dia, foram como nós.  

 

 

 

 

 

     Deus, não se ocupando diretamente de Sua Criação, a delega a seus filhos, que administram todos os departamentos onde a vida se manifeste. E a Vida está por toda a parte. Se formos ainda mais longe, diremos que poderemos tornar-nos cocriadores na obra do Pai, e não teria outra acepção Jesus haver concordado com a informação do salmista de que também somos deuses e poderemos, assim, fazer o que ao próprio Cristo já era então possível. 

 

 

 

 

 

     Mas, para isto, uma vida só não basta. O que temos na mochila é insuficiente para percorrermos todos os degraus da evolução. Reconhecemos ser mais cômodo vivermos uma única existência e, mediante alguns sortilégios, sentarmo-nos comodamente aos pés do Onipotente, garantindo os primeiros lugares.

 

 

 

 

 

     Porém, achamo-nos na idade da razão, aquela que não mais permite acreditarmos no que nos convém e, sim, na lógica que se impõe.

 

 

 

 

 

     Quando a Igreja aboliu a doutrina da reencarnação (com a mesma ingenuidade com que se pretendesse pôr por terra a lei da gravidade) e instituiu a unicidade das existências, isto é, só se nasce uma vez e a alma é criada a partir da concepção, deu um nó na questão. Dizendo de outro modo: o homem faz o homem e Deus faz a alma. Deus, criando a alma no momento da concepção, coloca-se na dependência de sua criatura. Se o indivíduo não quiser filhos, Deus não poderá criar almas. “O Céu pode esperar”, é a divisa apropriada à questão.

 

 

 

 

 

     Deus, possibilitando um progresso infinito às almas, capacitou-as para administrarem a sua obra. Impossível tentar compreender a atuação dessas entidades arquiangelicais e seu poder no que toca à supervisão laboriosa e paciente de etapas previstas para trilhões ou quatrilhões de anos. Emmanuel, exprimindo-se a respeito em A Caminho da Luz (1), diz: “Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos, do nosso sistema, existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias.

 

 

 

 

 

     “Essa Comunidade de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos, ao que nos foi dado saber, apenas já se reuniu, nas proximidades da Terra, para a solução de problemas decisivos da organização e da direção do nosso planeta, por duas vezes no curso dos milênios conhecidos.

 

 

 

 

 

     “A primeira, verificou-se quando o orbe terrestre se desprendia da nebulosa solar, a fim de que se lançassem, no Tempo e no Espaço, as balizas do nosso sistema cosmogônico e os pródromos da vida na matéria em ignição, do planeta, e a segunda, quando se decidia a vinda do Senhor à face da Terra, trazendo à família humana a lição imortal do seu Evangelho de amor e redenção.”

 

 

 

 

 

     Abaixo desses Seres Angelicais estamos nós, Espíritos encarnados e desencarnados, laborando em tarefas compatíveis com nossa evolução e possibilidades, em todos os setores da vida, na condição de cocriadores. Pretender que Deus nos haja criado para uma contemplação perpétua e improdutiva, enquanto Ele está tudo fazendo, é muito ao sabor de quem não seja chegado ao batente.

 

 

 


FONTE:  (1) Obra publicada pela Editora da FEB, 20a edição.

 

EVERALDO FERRARO 
everaldoferraro@gmail.com
Niterói, RJ (Brasil)